Em entrevista ao Crypto ID, Carlos Okada e Haroldo Medeiros detalham uso da palma capturada pelo celular, deduplicação facial, prova de vida, biometria 1:N, interoperabilidade e estratégias para equilibrar segurança e experiência do usuário
Foram três dias intensos de conteúdo, inovação, tecnologia e discussões sobre os caminhos do sistema financeiro. O Febraban Tech 2026 encerrou sua 36ª edição consolidando uma mudança de escala e, ao mesmo tempo, colocando uma questão no centro dos debates: como incorporar tecnologias cada vez mais autônomas sem retirar das pessoas a responsabilidade pelas decisões?
Realizado entre 24 e 26 de agosto no Distrito Anhembi, em São Paulo, o evento recebeu 70 mil visitas, recorde de público e crescimento de 20,7% em relação às 58 mil registradas em 2025. Foram 220 painéis e 627 palestrantes, além de aproximadamente 300 empresas entre patrocinadores e expositores. A nova estrutura contou com mais de 42 mil metros quadrados de área construída, expansão de 71% em relação à edição anterior.
O tema desta edição, “Agentes inteligentes, liderança humana”, atravessou discussões sobre inteligência artificial, infraestrutura digital, cibersegurança, identidade, novos meios de pagamento e transformação dos serviços financeiros. Entre os participantes estiveram o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, lideranças das maiores instituições financeiras do país e convidados internacionais como Joel Mokyr, Radia Perlman e John Maeda.
Foi nesse ambiente, em que identidade e segurança passaram a ocupar uma posição ainda mais estratégica na infraestrutura bancária, que o Crypto ID entrevistou Carlos Okada e Haroldo Medeiros, especialista em pré-vendas da Innovatrics, para entender quais tecnologias biométricas estão avançando sobre os processos de onboarding, autenticação e prevenção à fraudes.
A principal novidade apresentada pela empresa nesta edição do Febraban Tech foi uma modalidade biométrica que dispensa sensores especializados: o reconhecimento da palma da mão sem contato, capturada pela câmera de um smartphone.
A palma entra como nova camada biométrica
Carlos Okada apresentou a tecnologia como uma alternativa para adicionar uma nova camada de autenticação a operações que exijam maior grau de confiança.
“Trouxemos algo diferente este ano, a identificação da palma da mão. Utilizamos ela como um segundo fator de autenticação. Capturamos a imagem da palma usando a câmera do celular, sem precisar de hardware dedicado.”
A proposta é particularmente relevante porque modifica uma característica histórica da biometria das mãos. Tecnologias de impressão digital normalmente dependem de sensores ou scanners capazes de capturar as características biométricas do dedo. Na abordagem apresentada pela Innovatrics, uma câmera convencional pode obter a imagem necessária para gerar o template biométrico da palma.
A documentação da empresa informa que a tecnologia pode utilizar a câmera de um smartphone ou uma câmera IP comum, criando um template biométrico que posteriormente pode ser empregado tanto na verificação 1:1, quando o sistema compara a biometria apresentada com a identidade declarada, quanto na identificação 1:N, quando a amostra é pesquisada dentro de uma base biométrica.
A palma da mão pode ser incorporada como fator adicional de autenticação, especialmente em operações cujo valor ou perfil de risco justifique uma etapa extra.
Okada explicou que o fluxo pode começar pela captura e validação do documento, prosseguir pela selfie acompanhada de prova de vida e, posteriormente, incluir o cadastramento da palma.
“Pode ser usada em transações de alto valor ou risco. O cadastro envolve escanear documento, selfie com prova de vida (liveness) e, depois, a captura da palma.”
Uma biometria que exige um gesto voluntário
Outro argumento apresentado pela Innovatrics está relacionado à exposição da característica biométrica utilizada na autenticação.
O rosto, embora extremamente conveniente para jornadas remotas, é uma característica biométrica frequentemente registrada em fotografias, vídeos, redes sociais, sistemas de videomonitoramento e outras fontes de imagens.
A palma possui uma dinâmica diferente. Para utilizá-la em um sistema biométrico desse tipo, o usuário precisa deliberadamente posicionar a mão diante da câmera.
Para Okada, esse aspecto pode ser particularmente interessante em situações em que o banco procura acrescentar uma biometria menos exposta publicamente.
A Innovatrics também posiciona sua tecnologia de palma como uma solução orientada à privacidade e afirma que a captura pode ser realizada com câmeras comuns, sem necessidade de um scanner adicional.
Durante a entrevista, Haroldo Medeiros acrescentou outra informação técnica apresentada pela companhia: segundo a engenharia da Innovatrics, a palma oferece cerca de dez vezes mais pontos de identificação que o rosto.
Não existe uma única biometria para todos os canais
A discussão com os especialistas mostrou também que a estratégia biométrica dos bancos tende a se distanciar da ideia de escolher uma única modalidade para toda a jornada.
Haroldo Medeiros apontou três aplicações bastante distintas.
A impressão digital continua sendo extremamente relevante em ambientes físicos e já está consolidada, por exemplo, em terminais de autoatendimento que permitem determinadas operações sem cartão.
O reconhecimento facial, por sua vez, ganhou protagonismo no relacionamento remoto, principalmente em abertura de contas, recuperação de acesso e outras jornadas digitais nas quais o cliente não está fisicamente diante de um funcionário da instituição.
A palma sem contato surge como uma nova possibilidade para autenticações em que se pretende acrescentar uma característica biométrica voluntariamente apresentada pelo usuário.
Essa evolução também foi destacada por Carlos Okada durante a conversa.
“A biometria continuará sendo essencial. Vimos a evolução desde a impressão digital no caixa eletrônico até o reconhecimento facial. A pandemia acelerou a adoção de tecnologias de autenticação forte.”
O resultado é um cenário no qual rosto, impressão digital e palma podem coexistir, cada modalidade aplicada de acordo com o canal, o contexto e o risco da operação.
Segurança sem transformar autenticação em obstáculo
Para Haroldo Medeiros, um dos problemas centrais enfrentados pelas instituições financeiras está justamente em encontrar o equilíbrio entre risco e atrito.
Adicionar etapas indefinidamente pode elevar as barreiras contra determinadas fraudes, mas também pode tornar uma jornada legítima excessivamente complexa para o cliente.
No onboarding remoto, por isso, a estratégia apresentada pela Innovatrics é trabalhar com camadas de verificação, em vez de depositar toda a confiança em um único controle.
Entre essas camadas está a prova de vida, ou liveness detection, utilizada para determinar se a característica biométrica está sendo apresentada por uma pessoa fisicamente presente durante a verificação, e não simplesmente por meio de um artefato criado para enganar o sistema.
Essa distinção ganhou ainda mais importância diante da evolução dos ataques de apresentação e das tentativas de manipulação dos canais de captura.
Em junho de 2026, o Liveness Service 3.1.0 da Innovatrics recebeu certificação de nível Substantial após avaliação independente do CLR Labs, laboratório biométrico do Cabinet Louis Reynaud. A avaliação foi conduzida segundo as normas ISO/IEC 30107-3:2023, relacionada aos testes de detecção de ataques de apresentação, e ISO/IEC 19989-3:2020. A certificação é válida até 23 de junho de 2028.
É importante fazer aqui uma distinção técnica. Ataques de apresentação ocorrem, por exemplo, quando um fraudador tenta apresentar diante da câmera uma fotografia impressa, uma reprodução em tela ou outro artefato. Há também ataques de injeção, nos quais o fluxo da câmera pode ser substituído ou manipulado digitalmente. São vetores diferentes e, portanto, exigem mecanismos de defesa distintos.
Deduplicação: quando o problema não é apenas saber se o rosto é verdadeiro
A prova de vida responde a uma questão fundamental: existe uma pessoa real diante do processo de captura?
Mas essa não é a única pergunta que um sistema de onboarding precisa fazer.
Segundo Haroldo Medeiros, uma instituição também precisa verificar se aquela biometria já aparece anteriormente na base relacionada a outra identidade.
É nesse ponto que entra o motor de busca biométrica 1:N.
Em uma verificação convencional 1:1, o sistema procura responder se a característica biométrica apresentada corresponde à pessoa que afirma ser seu titular. Em uma busca 1:N, o sistema pesquisa a biometria contra um conjunto de registros.
Aplicada ao onboarding, essa capacidade permite realizar a deduplicação biométrica.
Na prática, o banco pode procurar identificar situações em que um mesmo rosto aparece associado a diferentes cadastros. Dessa maneira, a análise deixa de verificar apenas se documento e selfie apresentados naquele momento são coerentes entre si e passa também a considerar a relação daquela pessoa com registros biométricos já existentes.
Haroldo recomendou justamente a adoção desse motor biométrico como uma das camadas do processo remoto, evitando que uma mesma pessoa tente se registrar sucessivamente utilizando identidades diferentes.
É uma diferença importante porque desloca parte da defesa contra fraude da análise isolada de uma sessão para uma visão mais ampla da identidade dentro da base da própria instituição.
Hub de validação reduz dependência de uma única tecnologia
Outro conceito abordado por Carlos Okada foi o de hub de validação.
Em vez de estruturar toda a jornada sobre um único fornecedor ou uma única tecnologia, o modelo permite reunir diferentes mecanismos de validação e selecionar qual deles deverá ser acionado de acordo com as características e o risco da operação.
Isso abre espaço para uma arquitetura na qual diferentes fornecedores ou tecnologias especializadas possam atuar em pontos distintos da jornada.
Uma autenticação cotidiana e de menor risco pode seguir determinada sequência. Uma alteração sensível de cadastro, uma recuperação de credencial ou uma transação de valor elevado pode disparar camadas adicionais.
É nesse contexto que uma biometria como a palma pode ser incorporada não necessariamente como substituta do rosto ou da impressão digital, mas como mais um elemento disponível para uma autenticação adaptativa baseada em risco.
NIST: avaliação independente dos algoritmos
A entrevista abordou ainda o desempenho dos algoritmos da Innovatrics em avaliações do National Institute of Standards and Technology (NIST), instituição norte-americana de referência internacional em métricas e testes de tecnologias biométricas.
Em julho de 2026, pouco antes do Febraban Tech, a Innovatrics informou ter alcançado a primeira posição em quatro métricas selecionadas de precisão na Evaluation of Latent Friction Ridge Technology (ELFT) do NIST, em comparação que envolveu 12 fornecedores. O benchmark mede a capacidade dos algoritmos de pesquisar impressões digitais latentes em bases de referência, inclusive a partir de amostras parciais ou de baixa qualidade.
Resultados anteriores do ELFT já haviam colocado os algoritmos da companhia entre os melhores avaliados em determinados cenários. Em fevereiro de 2026, por exemplo, a empresa registrou taxa de acerto de 98,6% no rank 1 em um dos conjuntos de dados operacionais fornecidos pelo FBI utilizados na avaliação.
O próprio material da Innovatrics reproduz a ressalva de que resultados divulgados pelo NIST não representam endosso de sistemas, produtos, serviços ou empresas pelo governo norte-americano.
Durante a entrevista, Okada explicou que esse tipo de avaliação é importante para acompanhar objetivamente a precisão dos algoritmos, ressaltando também que eles precisam ser continuamente atualizados à medida que as técnicas de fraude evoluem.
Sistemas legados: biometria também precisa sobreviver à troca de tecnologia
Mas há outro problema especialmente relevante para instituições financeiras: como evoluir um ambiente biométrico sem transformar cada troca tecnológica em um novo cadastramento de milhões de clientes?
Haroldo Medeiros explicou que a estratégia utilizada pela Innovatrics em processos de migração envolve preservar a imagem biométrica original obtida durante o cadastro.
Isso tem implicações importantes para a longevidade da arquitetura.
Os algoritmos biométricos evoluem, versões são atualizadas e fornecedores podem ser substituídos. Se uma instituição mantiver exclusivamente um template proprietário gerado por uma tecnologia específica, uma mudança futura pode tornar a migração mais complexa.
Ao preservar a imagem original utilizada no cadastramento, segundo Medeiros, é possível realizar novos processamentos com tecnologias posteriores, permitindo a evolução do ambiente sem obrigar necessariamente o cliente a passar novamente pela etapa de captura.
É uma discussão particularmente importante para bancos, que trabalham com bases de clientes de grande escala e sistemas legados construídos ao longo de muitos anos.
Nesse contexto, interoperabilidade deixa de ser apenas uma característica técnica do presente e passa a determinar a capacidade de evolução futura da infraestrutura de identidade.
Da autenticação isolada para uma arquitetura de identidade em camadas
Consideradas em conjunto, as explicações de Carlos Okada e Haroldo Medeiros mostram uma mudança significativa na forma como a biometria pode ser aplicada ao setor financeiro.
O desafio já não é simplesmente escolher entre impressão digital ou reconhecimento facial.
A discussão passa por combinar documento, prova de vida, comparação facial, busca biométrica 1:N, deduplicação, impressão digital, palma sem contato e mecanismos acionados conforme o risco da operação.
Nesse modelo, cada tecnologia responde a uma pergunta diferente.
A prova de vida procura determinar se há uma pessoa real participando daquela captura. A comparação facial verifica a correspondência entre a biometria apresentada e a referência utilizada. A busca 1:N procura identificar recorrências dentro da base. A impressão digital continua adequada a uma série de ambientes físicos. A palma adiciona uma característica biométrica que exige uma apresentação voluntária do usuário. E a arquitetura de integração determina se tudo isso poderá continuar evoluindo no futuro.
No encerramento da conversa, Haroldo Medeiros convidou os participantes do Febraban Tech 2026 a conhecerem na prática duas aplicações que sintetizavam essa estratégia no estande da empresa: o onboarding com deduplicação facial e o pagamento utilizando a palma sem contato.
Mais do que apresentar uma nova modalidade biométrica, a participação da Innovatrics no evento mostrou uma discussão que deverá permanecer central para bancos e demais instituições: quanto mais digital se torna a relação financeira, mais sofisticada precisa ser a arquitetura utilizada para estabelecer, verificar e preservar a identidade de quem está do outro lado da transação.
Agradecimentos
O Crypto ID agradece à Innovatrics, ao Carlos Okada e ao Haroldo Medeiros pela disponibilidade durante o Febraban Tech 2026 e pela oportunidade de aprofundar, em entrevista, aspectos técnicos relacionados à biometria, prova de vida, deduplicação, interoperabilidade e às novas possibilidades de autenticação por palma sem contato.
A troca direta com especialistas que trabalham no desenvolvimento e na aplicação dessas tecnologias contribui para que possamos levar aos nossos leitores informações técnicas contextualizadas sobre a evolução da identidade digital e dos mecanismos de segurança utilizados pelo sistema financeiro.
Sobre Innovatrics

A Innovatrics é uma fornecedora independente de soluções biométricas confiáveis para governos e empresas, sediada na UE.
Nossos algoritmos estão consistentemente entre os mais rápidos e precisos em reconhecimento facial e de impressão digital . Desde 2004, firmamos parcerias com todos os tipos de organizações para desenvolver soluções de identificação biométrica confiáveis e flexíveis. Nossos produtos são utilizados em mais de 80 países, beneficiando mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo.
Na era digital, que é praticamente impossível de acompanhar, como construir confiança? Confiança entre as pessoas. Confiança para deixar você entrar no meu país. Confiança para emprestar dinheiro. Confiança para votar.
Em nossa busca por uma visão mais ampla, percebemos que, embora sejamos uma empresa de tecnologia, nossos produtos são, em última análise, muito humanos . É a biometria que traz confiança. Instantaneamente. E é isso que queremos construir…
Uma comunidade onde ninguém precisa ser revistado. Um sistema que dispensa a papelada. Uma forma orgânica de confirmar identidade. Um mundo de confiança instantânea .
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