Com votação marcada para 16 de março, diretrizes do CNE avançam em um cenário em que 70% dos alunos já utilizam IA generativa e apenas 32% receberam orientação formal; para o futurista Gui Zanoni, sem letramento digital e preparo pedagógico, Brasil corre risco de formar uma geração dependente de algoritmos
O Conselho Nacional de Educação (CNE) marcou para 16 de março a votação das primeiras diretrizes para uso de inteligência artificial na educação brasileira. A proposta prevê limites à automação pedagógica, exige supervisão humana em processos críticos e recomenda letramento digital obrigatório sobre vieses e uso ético da tecnologia. O movimento ocorre em meio à rápida popularização da IA entre estudantes e abre um debate sobre até que ponto a automação pode avançar dentro da sala de aula.
Dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) liberados na 15ª edição da pesquisa TIC Educação e divulgados em setembro de 2025, indicam que sete em cada dez alunos do ensino médio que usam internet já recorreram a ferramentas de IA generativa. Apenas 32% afirmam ter recebido orientação formal nas escolas sobre o tema.
Para Gui Zanoni, futurista e especialista em inovação e transformação digital, o crescimento acelerado do uso de IA entre jovens era previsível. O que surpreende, segundo ele, é a velocidade da adoção diante da lentidão institucional. “Era inevitável. O que chama atenção é a velocidade e o fato de as instituições terem sido pegas de calças na mão. A tecnologia não pede licença, ela simplesmente acontece”, afirma.
Na avaliação do especialista, o debate regulatório ocorre em momento decisivo porque a tecnologia não criou a crise educacional, apenas evidenciou fragilidades históricas. O modelo escolar brasileiro, estruturado para padronizar competências e formar trabalhadores para uma economia linear, contrasta com uma realidade de aprendizagem mediada por algoritmos, dados e automação cognitiva. “O problema nunca foi a tecnologia chegar. O problema é que as escolas ainda operam com um manual escrito para a Revolução Industrial. A IA apenas expôs as rachaduras com mais brutalidade”, diz.
A discussão sobre preparo institucional também desloca o foco da conduta do estudante para a responsabilidade pedagógica. Em vez de tratar o uso da IA como desvio individual, Zanoni argumenta que a questão central reside na ausência de formação crítica para o uso das ferramentas. “O despreparo pedagógico é mais grave que o uso excessivo. Culpar o estudante por usar IA é como culpar um trabalhador por usar uma ferramenta que aumenta sua produtividade. A questão é quem está ensinando esse jovem a pensar criticamente sobre o que recebe da máquina”, pontua.
A proposta do CNE prevê supervisão humana obrigatória, mas o especialista sustenta que o dispositivo regulatório, isoladamente, não resolve a lacuna formativa. Para ele, sem capacitação docente consistente, a supervisão tende a se tornar apenas formalidade administrativa. “Supervisão humana sem formação humana é burocracia com nome bonito. Exigir que o professor supervise sem oferecer letramento adequado sobre funcionamento, vieses e limites da IA não resolve o problema”, afirma.
O uso da tecnologia sem orientação estruturada também traz impactos cognitivos de longo prazo. A facilidade de delegar tarefas intelectuais às máquinas altera a dinâmica do aprendizado e pode comprometer o desenvolvimento de competências essenciais. “A maior ameaça não é a cola, é a atrofia cognitiva. Quando o aluno delega o esforço de pensar, formular e corrigir, ele abre mão do processo que constrói competência real”, diz Zanoni.
O dado que aponta 70% de uso frente a 32% de orientação formal revela, segundo o futurista, um padrão recorrente na história tecnológica. O resultado é um desalinhamento estrutural entre prática e política pública. “Estamos entrando em uma corrida de F1 com um carrinho de mão e acreditando que estamos no mesmo patamar”, compara.
A transferência sistemática de funções de raciocínio, síntese e resolução de problemas para sistemas automatizados pode reduzir o exercício dessas capacidades. “O cérebro se fortalece pelo uso. Se transferimos para a máquina as funções de raciocínio, treinamos o cérebro para não exercê-las. O impacto no longo prazo é uma geração conectada, mas dependente”, avalia.
Países como Finlândia, China e Coreia do Sul já incorporaram o letramento digital como competência curricular central, enquanto Estados Unidos e União Europeia aceleram diretrizes específicas para IA na educação. Para Zanoni, o país ainda dispõe de margem para evitar decisões reativas. “Estamos atrasados na regulamentação, mas não necessariamente no debate. Temos uma janela para agir antes que a crise bata na porta”, afirma.
A incorporação do letramento digital, no entanto, não pode ocorrer como disciplina isolada. Segundo o especialista, trata-se de estratégia transversal que envolve compreensão de algoritmos, reconhecimento de vieses, análise crítica de fontes e tomada de decisão ética. “Não pode ser módulo optativo. Precisa ser estratégia. Letramento digital significa entender como os sistemas funcionam e quais são seus limites”, defende.
Para além da sala de aula, a decisão do CNE repercute na formação profissional e na competitividade do país. O debate sobre IA na educação, segundo Zanoni, ultrapassa o campo tecnológico e assume dimensão estrutural.
“O debate sobre IA na educação não é tecnológico, é civilizatório. O modelo educacional foi construído para um mundo que não existe mais. Quem insistir em fazer mais do mesmo vai colher mais do mesmo”, conclui.
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