Gartner aponta quatro mudanças no trabalho com IA, incluindo ampliação das capacidades humanas, novas habilidades e geração de valor
Conforme a Inteligência Artificial (IA) continua acelerando o ritmo e ampliando o escopo do trabalho, os Chief Information Officers (CIOs) e executivos de negócios precisam se preparar para profundas transformações estruturais. Contudo, o entusiasmo desenfreado tem gerado distorções: em apenas um ano, as organizações aumentaram seus casos de uso de IA em mais de 400%.
Apesar de 58% dos líderes relatarem que obtêm valor perceptível com a tecnologia, a realidade financeira é implacável: apenas 1 em cada 5 projetos de IA (20%) entrega um Retorno sobre o Investimento (ROI) comprovadamente positivo, enquanto 86% dos CIOs alertam que os riscos estão crescendo mais rápido do que o valor gerado.

e Tori Paulman, Vice-Presidente Analista do Gartner
A análise e os caminhos para contornar esse descompasso foram apresentados pelos Vice Presidentes – Analistas do Gartner, Gabriela Vogel e Tori Paulman, durante a Conferência Gartner CIO & IT Executive, realizada em São Paulo.
“Quando executivos de negócios e de TI olharem para o início da era da IA, perceberão que seu maior erro foi acreditar que a automação do trabalho era o objetivo, quando a ampliação das capacidades da força de trabalho era a oportunidade“, afirma Tori Paulman, Vice-Presidente Analista do Gartner. “A vantagem competitiva ficará com os CIOs e executivos de negócios que construírem uma organização moldada pela Inteligência Artificial, na qual o valor da IA se acumula ao remodelar funções e permitir que os fluxos de trabalho ultrapassem fronteiras tradicionais, aumentando a velocidade e reduzindo atritos.”
Embora os cortes na força de trabalho possam proporcionar ganhos financeiros no curto prazo, eles reduzem os pipelines de talentos e enfraquecem o conhecimento institucional. Com o crescimento da força de trabalho mundial estagnado ou em declínio, a competição pelos talentos de que as organizações precisam será intensa, aumentando, em última instância, os custos de recrutamento, treinamento e integração.
O Gartner prevê que, até 2029, 30% dos funcionários demitidos devido à substituição por IA precisarão ser recontratados, muitas vezes a um custo significativamente maior.
“Executivos de negócios e de TI que utilizarem a Inteligência Artificial principalmente como uma ferramenta para redução de custos correm o risco de fazer cortes profundos demais e cedo demais, comprometendo sua capacidade de inovar em seus modelos de negócios e de competir em novos mercados à medida que a IA continua amadurecendo. Em vez disso, eles devem desenvolver uma estratégia de ‘talent remix’ que utilize a Inteligência Artificial para remodelar funções e redirecionar trabalhadores de atividades menos produtivas para novas oportunidades”, diz Paulman.
As organizações mais eficazes resistirão à tentação de automatizar todas as tarefas e delegar todas as decisões à IA. “O Gartner 2026 Hype Cycle for the Future of Work mostra que, à medida que os primeiros investimentos em Inteligência Artificial chegam ao Vale da Desilusão, o desafio enfrentado pelos CIOs e executivos de negócios deixa de ser tecnológico; trata-se de usar a IA para ampliar a inteligência, a expertise e a criatividade humanas”, afirma Paulman.
O lado oculto da produtividade: Do ciclo de dependência ao Brain Fry
A ampliação das capacidades humanas, no entanto, não ocorrerá de forma sustentável se as lideranças ignorarem o impacto biológico e cognitivo nas equipes. Gabriela Vogel e Tori Paulman alertaram para o chamado Ciclo de Dependência provocado pela IA:
- O Estímulo (“Always-on”): Fluxos ininterruptos de notificações que desencadeiam picos contínuos de trabalho;
- Ânsia de Produtividade (Productivity Craving): Pressão crescente para fazer mais em menos tempo, gerando sobrecarga e estresse crônico;
- A Resposta: Mergulho no hipertrabalho, multitarefa e elevação contínua das metas;
- A Recompensa Perigosa: O efeito “caça-níqueis” da IA, no qual acertos espetaculares alternam-se com erros que exigem correção urgente, alimentando ansiedade e frustração.
Esse ciclo culmina no que os analistas classificam como “Brain Fry” (fritura mental), estágio que precede o Burnout total. Entre as consequências diretas estão névoa mental, paralisia e fadiga decisória, perda de foco, aumento de cefaleias, distúrbios de sono e sensação constante de exaustão.
Para preservar o capital humano, o Gartner recomenda duas medidas objetivas de gestão de capacidade:
- Limitar a taxa de ocupação a 85% (Cap Utilization at 85%): Deixar 15% de margem operacional livre para aprendizado, experimentação e absorção de mudanças sem colapso cognitivo.
- Multiplicador de esforço de 1.2x a 1.5x: Alocar de 20% a 50% mais recursos e tempo por iniciativa de IA, reconhecendo que a tecnologia impõe fricção e esforço de adaptação antes de gerar ganhos reais.
Dispersão de ferramentas (Tool Sprawl) e a necessidade de interoperabilidade
Outra ilusão comum é acreditar que acumular softwares eleva a eficiência. Pesquisas do Gartner apontam que 72% dos profissionais digitais que usam de 16 a 25 aplicações acreditam ser mais produtivos, mas, contraditoriamente, são os que mais perdem prazos, têm dificuldades para localizar dados essenciais e deixam passar atualizações operacionais críticas.
A saída para conter essa dispersão caótica passa pela integração contextual e protocolos abertos de interoperabilidade — com destaque para a arquitetura de Model Context Protocol (MCP), que conecta modelos de IA diretamente às fontes corporativas de dados sem que o funcionário precise alternar entre dezenas de janelas e ferramentas isoladas.
Como equilibrar o balanço: As três estratégias para o P&L
Para gerar valor sem comprometer a saúde financeira e humana, as organizações devem sincronizar três abordagens distintas de investimento:
- Ramp Up (Retorno ao Colaborador): Foco em construir confiança, competências, hubs de experimentação e letramento em IA, gerindo essa frente como um centro de custos fundamental.
- Recalibrate (Retorno sobre o Investimento): Revisão de precificação, modelos de comercialização, renegociação de contratos e corte de despesas gerais e redundâncias, gerindo a IA como centro de lucro.
- Reinvent (Retorno sobre o Futuro): Adoção de mentalidade de Venture Capital para desenvolver novos produtos, ofertas disruptivas e parcerias estruturais.
Hype Cycle para o Futuro do Trabalho, 2026

Para navegar pelo cenário em evolução da transformação da força de trabalho envolvendo humanos e IA, os CIOs e executivos de negócios precisam considerar mudanças que influenciam a forma como o trabalho é realizado e onde as organizações geram valor.
Mudança 1: Ampliar as capacidades humanas por meio da relação entre humanos e IA
À medida que a IA evolui para se tornar uma “ferramenta parceira“, as organizações precisam criar formas mais sofisticadas de colaboração que ampliem as capacidades humanas, preservando, ao mesmo tempo, a responsabilidade pelas decisões. As empresas mais bem-sucedidas utilizarão a IA para fortalecer o julgamento, a criatividade, a liderança e a tomada de decisões dos colaboradores, em vez de substituí-los.
Entre as tecnologias que podem ajudar a viabilizar essa mudança estão o avatar de IA do colaborador, ferramentas de IA que atuam como parceiras de trabalho (AI toolmate), aplicações de coaching digital, o gêmeo digital do colaborador e a IA emocional.
Os especialistas que participaram da conferência alertaram, no entanto, que essa ampliação, quando mal desenhada, tem gerado um padrão de dependência: usuários repetem comandos à exaustaão buscando um resultado melhor, oq ue já vem sendo associado aos sintomas de exaustão cognitiva – descrita como brain fry – em equipes de alta performance.
Mudança 2: Capacitar uma força de trabalho preparada para a IA, que se adapta — e não apenas a adota
O ritmo das mudanças tecnológicas está expondo lacunas críticas em habilidades, capacidade de adaptação e prontidão da força de trabalho. As organizações precisam de colaboradores capazes de aprender continuamente, trabalhar de forma colaborativa entre diferentes áreas e prosperar em funções cada vez mais fluidas.
As organizações preparadas para o futuro investirão em letramento em IA, gestão de competências habilitada por IA, destreza digital e análise de estilos de trabalho entre seus colaboradores, além de garantir que seus executivos sejam “fluentes em IA”.
Um dos dados apresentados no evento ilustra bem esse desafio: 72% dos trabalhos digitais hoje envolvem entre 16 e 25 aplicações diferentes. O efeito colateral é uma sensação de produtividade que nem sempre se traduz em capacidade real de encontrar informação e concluir tarefas — reforçando exatamente a necessidade de letramento em IA e destreza digital apontada pelo Gartner.
Mudança 3: Aprofundar o contexto, o julgamento e o significado
À medida que a IA é incorporada a mais processos de negócios, as organizações enfrentam um risco crescente de perder contexto, julgamento humano e conhecimento institucional. As empresas preparadas para o futuro desenvolverão sistemas que aprimorem a qualidade das decisões, mantenham a supervisão humana e garantam que os trabalhadores compreendam não apenas como um processo é realizado, mas também por que ele é realizado dessa maneira.
Entre as tecnologias que os CIOs podem considerar estão interfaces de usuário conversacionais, plataformas de inteligência de decisão e interfaces de usuário generativas.
Durante o evento, um dos especialistas resumiu o risco central por trás dessa mudança: diferentemente da IA, os seres humanos têm um limite cognitivo — por isso as soluções precisam ser desenhadas considerando essa restrição, e não apenas a capacidade técnica da tecnologia. A recomendação é “proteger a capacidade humana”, o que na prática significa reservar tempo das equipes para absorver os novos fluxos de trabalho criados pela IA, em vez de simplesmente empilhar mais ferramentas sobre a rotina já existente.
Mudança 4: Construir uma base para a geração de valor acumulativo
O sucesso no longo prazo dependerá de ir além da adoção de ferramentas de IA para uso cotidiano, criando condições para que cada novo caso de uso seja mais rápido, menos dispendioso e mais seguro do que o anterior.
O Gartner prevê que, até 2027, 75% das organizações que priorizarem a conversão dos ganhos de produtividade proporcionados pela IA em redução de custos serão superadas por concorrentes que reinvestirem agressivamente esses ganhos em inovação, modernização e capacitação.
Entre as tecnologias que podem ajudar os CIOs a viabilizar essa mudança estão dispositivos vestíveis equipados com IA, modelos de Inteligência Artificial Generativa (GenAI) específicos de domínio, IA incorporada e vibe coding.
Na prática, essa base se constrói equilibrando três frentes de investimento simultâneas: adoção (criar familiaridade e curiosidade nas equipes, sem retorno financeiro direto), recalibração (redesenho de processos e sistemas, com ROI mensurável) e reinvenção (apostas de alto risco no modelo de negócio). Organizações de baixa maturidade concentram seus recursos na primeira frente; as mais maduras equilibram melhor as três — mas nenhuma delas escapa da necessidade de seguir investindo continuamente em capacitação, inclusive quando o retorno não é imediatamente mensurável.
Embora 58% dos executivos relatem valor positivo com IA, uma parcela relevante ainda reporte riscos ao negócio, a resposta apontou a falta de transparência como o problema central. Quando as expectativas sobre o retorno nos anos 1, 2 e 3 não são explicitadas desde o início, surgem depois disputas sobre responsabilidade entre as áreas de negócio e tecnologia.
A recomendação é que cada investimento tenha um “porquê” claro desde o começo, mesmo quando o ganho é qualitativo e não um retorno financeiro direto. Um planejamento estratégico de três a cinco anos, que deixe explícita a mudança de foco dos investimentos ao longo do tempo, foi apontado como o principal antídoto contra esse tipo de atrito interno nas empresas ao definir a adoção da IA.
Gartner é a autoridade mundial em IA
O Gartner é o parceiro indispensável para executivos C-Level e fornecedores de tecnologia à medida que implementam estratégias de IA para alcançar suas prioridades de missão crítica. A independência e a objetividade dos insights do Gartner proporcionam aos clientes a confiança necessária para tomar decisões bem fundamentadas e desbloquear todo o potencial da IA. Clientes C-Level estão usando a ferramenta de IA do Gartner AskGartner para definir como aproveitar a IA em seus negócios. Com mais de 2.500 especialistas em negócios e tecnologia, 6.000 insights escritos, além de mais de 1.000 casos de uso e estudos de caso de IA, o Gartner é a autoridade mundial em IA.
Sobre a Conferência Gartner CIO & IT Executive
Os analistas do Gartner estão apresentando insights adicionais sobre tendências que moldam o futuro da TI e dos negócios, incluindo a aceleração da transformação empresarial, modernização de aplicações, infraestrutura e operações, na Conferência Gartner CIO & IT Executive, que está sendo realizada até 23 de setembro em São Paulo (Brasil). Data e local adicional inclui: 5 a 7 de outubro em Dubai (Emirados Árabes).
Sobre o Gartner for AI Leaders
O Gartner for AI Leaders oferece insights, orientações e ferramentas para ajudar os líderes de IA a acelerar a implementação de iniciativas de IA em toda a organização e gerar valor mensurável para os negócios. .
Sobre o Gartner
O Gartner, Inc. fornece insights objetivos e acionáveis que impulsionam decisões mais inteligentes e um melhor desempenho para as prioridades de missão crítica das empresas.
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