Reflexões do SXSW EDU mostram que a Inteligência Artificial já chegou às salas de aula, mas educadores, pesquisadores e instituições ainda buscam as perguntas certas antes de definir as respostas
Por Ciça Melo

Durante o SXSW EDU 2026, evento dedicado à inovação em educação que integra a programação do SXSW – South by Southwest 2026, ainda em andamento em Austin, Texas, até 18 de março, a especialista em educação Ana Cecilia da Costa Carvalho Melo, diretora presidente do Instituto Apontar compartilha reflexões sobre o papel da Inteligência Artificial no ensino.
A partir de debates, workshops e encontros realizados durante o evento em Austin, o texto discute o estágio atual da adoção da IA nas escolas e universidades — e revela que, apesar do entusiasmo, ainda estamos tentando descobrir quais são as perguntas certas antes de encontrar as respostas.
Se a IA é a resposta, qual é a pergunta?
Estou no portão de embarque, indo embora do SXSW EDU. Foram quatro dias de muito aprendizado: workshops, palestras, encontros um a um com profissionais e visitas a escolas. Uma das grandes riquezas deste evento é justamente reconhecer que aprendemos de formas diversas — e, por isso, a programação oferece múltiplos formatos e caminhos. Cada participante pode montar a sua própria jornada.
Não é preciso dizer que o tema da Inteligência Artificial estava presente na grande maioria das sessões, independentemente do formato. A ponto de que, em uma das palestras a que assisti, os organizadores começaram avisando que ali teríamos um “break de IA”. Faço questão de registrar que foi inclusive uma das melhores palestras do evento: Patricia Mota Guedes, da Fundação Itaú, falando sobre a importância da arte e da cultura no processo educacional.

A pergunta que mais tenho recebido é:
“E aí, como vamos usar IA na educação?”
E a resposta mais honesta que encontrei nestes dias é bastante simples: ninguém sabe.
O que constatei é que estamos todos um pouco perdidos — uns com mais medo do que outros, dependendo, como sempre, da personalidade de cada um, de seus vieses conscientes e inconscientes, de onde trabalha, com quem conversa e de quais experiências já teve com a tecnologia.
Conversando com pessoas que participaram de edições anteriores do evento, ouvi que neste ano estamos “menos perdidos”. Confesso que nem consigo imaginar como era antes.
Uma fala maravilhosa do professor Edgar Gómez-Cruz, da University of Texas at Austin, resumiu bem este momento. O slide a seguir traz a pergunta:
“Se a IA é a resposta, qual é a pergunta?”

Na educação, muitas vezes buscamos a “bala de prata”, a grande solução que resolverá problemas complexos. Isso é compreensível — afinal, estamos lidando com um desafio enorme e fundamental para o futuro da sociedade. Mas dificilmente haverá uma única solução.
Tenho, no entanto, algumas certezas.
A primeira: a Inteligência Artificial vai mudar muita coisa — inclusive a educação.
Como exatamente? Ainda não sabemos.
Isso nos leva à próxima grande questão: como vamos nos proteger?
Aqui trago outra convicção: precisamos de guidelines, precisamos discutir regulação e princípios de uso da IA. Mas surge um paradoxo inevitável: como estabelecer regras para algo que ainda estamos aprendendo a usar?
E aqui aparece uma terceira certeza: precisamos fazer isso juntos.
É fundamental ouvir todos os agentes — sem trocadilho — que participam desse processo. Professores e alunos, em especial. Se conseguirmos construir esse caminho de forma coletiva e participativa, teremos muito mais chances de tomar boas decisões.
Quero encerrar contando sobre um workshop de que participei.
Ao final da sessão, os organizadores pediram que todos se posicionassem fisicamente na sala: de um lado, quem era contra o uso da Inteligência Artificial; do outro, quem era favorável. Éramos cerca de 30 pessoas. Apenas três foram para a parede dos contrários. Todos os demais ficaram do outro lado.
Tivemos dez minutos para conversar dentro de cada grupo.
Quando voltamos ao plenário, pediram que apresentássemos nossos principais pontos. Um senhor representou o grupo contrário. Ele falou com muita lucidez sobre questões éticas, sobre as múltiplas possibilidades de mau uso, sobre impactos na saúde mental e, sobretudo, sobre o risco de algo que ainda não compreendemos completamente.

Depois passaram a palavra para o nosso grupo.
Eu estava bem na frente — e sigo usando muletas (quebrei o pé esquerdo há 34 dias). Uma das organizadoras pediu que eu falasse.
Nossa discussão tinha sido excelente: havíamos falado de muitos benefícios, mas também de vários receios. Por isso preferi dizer algo mais simples.
Olhei para aquelas três pessoas, quase encostadas na parede oposta, e disse que talvez a questão principal fosse que não temos exatamente uma escolha.
O que eu podia oferecer a eles eram as minhas muletas — para ajudar nessa travessia que certamente não será fácil. E que precisaremos caminhar juntos, levando muito a sério todas as preocupações que eles tinham levantado.
Porque, no fundo, não existe um “opt out”.
Oppenheimer e tantos outros cientistas já enfrentaram dilemas morais profundos diante das consequências de suas próprias criações. A Inteligência Artificial já está entre nós.
A grande pergunta agora é se teremos inteligência real para aprender a usá-la a nosso favor.
Uma notinha do Crypto ID
E, de certa forma, as reflexões apresentadas neste texto dialogam diretamente com o que Regina Tupinambá escreveu em seu artigo “SXSW 2026: o fim do deslumbramento tecnológico e o retorno da estratégia de marca. Por Regina Tupinambá”, publicado no Crypto ID às vésperas do festival.
Na análise da autora, a expectativa para esta edição do SXSW já apontava para uma mudança de maturidade no debate sobre Inteligência Artificial: a tecnologia deixaria de ocupar o palco apenas como novidade disruptiva para assumir um papel mais estrutural — uma camada de infraestrutura capaz de apoiar processos, análise de dados e operações.
Mas isso não significa substituir o pensamento humano.
Se há algo que os debates do SXSW EDU reforçam é justamente a necessidade de tratar a Inteligência Artificial como recurso e ferramenta, e não como instância decisória. Estratégias educacionais — assim como estratégias de marca, políticas públicas ou decisões culturais — envolvem dimensões sociais, éticas e humanas que vão muito além da capacidade de aprendizado dos atuais agentes de IA.
A tecnologia pode ampliar capacidades, acelerar análises e ajudar a interpretar padrões. Mas definir caminhos, prioridades e responsabilidades continua sendo uma tarefa humana.
Talvez seja esse um dos aprendizados mais relevantes desta edição do SXSW: a maturidade tecnológica começa quando deixamos de perguntar apenas o que a IA pode fazer, e passamos a discutir o que devemos — ou não — delegar a ela.
No fim das contas, a Inteligência Artificial pode ser uma poderosa aliada. Mas a inteligência estratégica — aquela que orienta decisões que impactam pessoas, instituições e o futuro da sociedade — ainda depende, e continuará dependendo, de nós.
O Crypto ID agradece à Ciça Melo, diretora presidente do Instituto Apontar e também cofundadora do Movimento para Todos, pela reflexão generosa e provocadora compartilhada neste artigo, que contribui para ampliar um debate cada vez mais necessário sobre o papel da tecnologia no futuro da educação.
Sobre o Instituto Apontar
O Instituto Apontar é uma organização social que atua com crianças e adolescentes de baixa renda com traços de altas habilidades ou superdotação, promovendo oportunidades de desenvolvimento por meio da educação, da cultura e da assistência social.
A instituição identifica, seleciona e acompanha estudantes em seus programas com base em três pilares principais: desenvolvimento acadêmico, socioemocional e cultural, buscando fortalecer vínculos e ampliar oportunidades para que esses jovens possam desenvolver plenamente seu potencial.
Sua missão é impulsionar a transformação social ao apoiar talentos provenientes de contextos de vulnerabilidade, contribuindo também para inspirar melhorias nas políticas públicas voltadas à educação e à inclusão. O Instituto Apontar busca ser referência na área de altas habilidades, promovendo protagonismo juvenil, inovação, excelência, colaboração e ética em todas as suas ações.
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