IoT e segurança cibernética ganham destaque em sistemas de medição inteligente, com foco em interoperabilidade, antifraude e confiança entre máquinas
Quando uma conta de energia, água ou gás chega ao consumidor, existe uma informação essencial por trás do valor cobrado: uma máquina mediu aquele consumo.
À medida que esses equipamentos se tornam conectados a precisão metrológica deixa de ser a única questão. Surge, então, um novo requisito: é possível comprovar qual dispositivo produziu aquela informação e verificar se o dado permaneceu íntegro ao longo de todo o processo?
Nesse contexto, vale a pena revisitar uma medida adotada no início de 2026, porque seus efeitos ajudam a compreender como essa transformação começa a chegar à infraestrutura de serviços essenciais. No setor elétrico brasileiro, essa discussão ganhou uma dimensão concreta com a Portaria Normativa MME nº 126, de 28 de janeiro de 2026.
O § 6º leva a segurança para dentro da medição inteligente
O parágrafo 6º da Portaria Normativa MME nº126/2026 determina expressamente que “os sistemas de medição deverão conter mecanismos de combate a perdas não técnicas e redução de inadimplência” e estabelece funcionalidades mínimas para essa nova infraestrutura.
Entre elas estão leitura remota, preservação de registros durante interrupções de energia, registro com data e hora das interrupções, registro de ocorrências de alterações realizadas na programação do medidor, mecanismos de segurança cibernética e de interoperabilidade, e alarme antifraude.
A norma prevê ainda comunicação remota com a Infraestrutura de Medição Avançada, Advanced Metering Infrastructure (AMI), além de corte e religamento remotos, conforme as condições estabelecidas para cada unidade consumidora.

“AMI não é uma solução recente nem específica do Brasil. É uma arquitetura internacional de modernização das redes elétricas, implantada em larga escala desde o início dos anos 2000. Países da Europa, os Estados Unidos e outras grandes redes elétricas já utilizam esse modelo, no qual medidores inteligentes se comunicam de forma bidirecional com os sistemas das distribuidoras. O que muda agora é a escala e a criticidade dessas infraestruturas. Quando o medidor passa a enviar informações remotamente e a receber comandos, como parametrização, corte ou religamento, ele deixa de ser apenas um instrumento de medição e passa a ser um elemento ativo de uma infraestrutura digital. Por isso, identidade, autenticação, integridade e rastreabilidade passam a ser requisitos fundamentais”, explica o engenheiro Alexandre Siffert, Managing Director da CERMOB.
Esses requisitos mudam a dimensão tecnológica do equipamento. Um medidor conectado não apenas registra consumo. Ele produz dados, registra eventos e pode receber comandos capazes de interferir em sua operação. Por isso, proteger a rede de comunicação já não é suficiente.
É necessário saber quem está se comunicando, qual dispositivo produziu determinado evento e se aquele equipamento continua autorizado a participar da infraestrutura.
Todo dispositivo conectado deve ter uma identidade verificável
É nesse ponto que a identidade criptográfica passa a integrar a arquitetura de segurança.
No mundo físico, uma pessoa pode declarar seu nome, mas essa afirmação, por si só, não comprova sua identidade. Para estabelecer confiança em determinadas relações, utilizamos documentos e credenciais emitidos ou reconhecidos por entidades confiáveis. O mesmo princípio começa a ser aplicado às máquinas.
Para Alexandre Siffert o conceito de trust, confiança estabelecida por mecanismos verificáveis, torna-se estrutural em ambientes formados por dispositivos conectados.
“Todo dispositivo conectado deve possuir uma identidade verificável. No mundo físico, não basta uma pessoa declarar seu nome: é necessário apresentar uma credencial emitida ou reconhecida por uma entidade de confiança. No ambiente digital, o princípio é o mesmo. Máquinas, sensores e equipamentos precisam ser capazes de provar quem são. É isso que está por trás do conceito trust, a confiança estabelecida por mecanismos verificáveis e por uma cadeia de confiança reconhecida. Essa busca por confiança acompanha as relações humanas, econômicas e institucionais há séculos. No mundo digital, ela se torna ainda mais crítica porque as interações acontecem em escala, de forma automatizada e, muitas vezes, sem intervenção humana”, afirma Siffert.
Na prática, isso significa substituir a confiança baseada apenas em um número de série, endereço de rede ou registro em banco de dados por mecanismos capazes de vincular aquele equipamento a uma identidade digital verificável.
O problema já envolve bilhões de identidades
A escala ajuda a dimensionar o desafio. Segundo a IoT Analytics, o mundo encerrou 2025 com 21,1 bilhões de dispositivos IoT conectados, e a projeção é chegar a 39 bilhões em 2030.
Sensores, medidores, controladores e outros equipamentos deixam, portanto, de representar apenas bilhões de pontos de conectividade. Eles se transformam em bilhões de entidades digitais que, dependendo da criticidade de suas funções, precisarão ser identificadas, autenticadas, autorizadas e eventualmente revogadas.
Para Siffert, esse crescimento transforma a gestão das identidades não humanas em um problema de infraestrutura:
“Na IoT, o problema das identidades não humanas se multiplica por bilhões. Cada sensor, cada atuador, cada controlador precisa possuir uma identidade verificável, sustentada por mecanismos de confiança, com ciclo de vida gerenciado e possibilidade de revogação quando necessário.”
NHI, sigla para Non-Human Identity, ou identidade não humana, é o conceito aplicado a máquinas, aplicações, sensores, dispositivos e outros componentes digitais que precisam ser identificados e autenticados para participar de uma infraestrutura confiável. Esse ciclo não termina quando o equipamento é instalado.
Uma identidade precisa poder ser provisionada, validada, renovada e revogada. Se um dispositivo é substituído, a nova unidade não deveria simplesmente assumir a identidade criptográfica da anterior. O sistema precisa saber que houve uma mudança.
DLMS/COSEM organiza a comunicação dos medidores. A identidade do equipamento é uma camada da arquitetura. Outra é a forma como medidores e sistemas trocam informações.
O DLMS/COSEM é um conjunto de especificações internacionais associado à família IEC 62056, utilizado para estruturar a comunicação em sistemas de medição inteligente.
O padrão organiza leituras, eventos, comandos, parâmetros e objetos metrológicos de forma interoperável entre medidores, concentradores e sistemas centrais. Também pode operar sobre diferentes meios de comunicação, como NB-IoT, PLC, radiofrequência, Ethernet e redes IP.
Para José Carlos, Diretor Técnico da CERMOB, uma característica fundamental é que a segurança não depende exclusivamente da rede utilizada para transportar o dado.
“A segurança embutida no DLMS foi concebida para proteger a informação metrológica na própria camada de aplicação, e não apenas no canal de comunicação. Na prática, o DLMS contempla mecanismos de autenticação, controle de associação, permissões de acesso, cifragem, integridade e proteção contra repetição de mensagens. As chamadas Security Suites acrescentam diferentes perfis criptográficos à arquitetura. Essa característica se torna especialmente importante diante dos requisitos da Portaria 126.”
Segundo José Carlos explicou, uma leitura, um comando de configuração, um corte remoto ou uma religação não têm necessariamente o mesmo nível de criticidade. A arquitetura precisa ser capaz de controlar quem pode executar cada operação e sobre qual equipamento.
Identidade do dispositivo e segurança da comunicação são complementares
Um protocolo pode estabelecer uma comunicação protegida e interoperável. Ainda assim, permanece uma questão fundamental: qual identidade está sendo autenticada?
É aí que entram Infraestrutura de Chaves Públicas, certificados digitais e chaves criptográficas associadas aos dispositivos.
Em uma arquitetura baseada em identidade criptográfica, o equipamento não apenas informa ao sistema quem é. Ele apresenta elementos que permitem verificar essa afirmação.
Em termos simples, deixa de dizer apenas:
“Sou um medidor autorizado.”
E passa a ser capaz de demonstrar:
“Sou este medidor específico, autorizado a operar nesta infraestrutura.”
A identidade individual está relacionada à capacidade de detectar substituições e administrar a confiança no equipamento durante seu ciclo de vida.
Assinar o dado na origem muda a rastreabilidade
Existe ainda uma terceira camada: não apenas autenticar o dispositivo ou proteger sua comunicação, mas tornar verificável a procedência da informação produzida por ele.
José Carlos explica: “Quando um dado é produzido pelo medidor e assinado digitalmente com um certificado OM-BR ICP-Brasil, ele deixa de ser apenas um registro armazenado em um sistema central e passa a carregar uma prova criptográfica de autoria, integridade e origem.”
Na arquitetura descrita pelo engenheiro, esse princípio pode ser aplicado a leituras de consumo, eventos de violação, abertura de tampa, intervenções, corte, religamento e alterações de parâmetros.
Uma modificação posterior no valor, no evento, no identificador do equipamento ou em outros elementos protegidos pela assinatura compromete sua validação criptográfica.
A diferença é importante conforme explica José Carlos: “Um banco de dados pode registrar que determinada medição foi recebida. Uma arquitetura de rastreabilidade pode acrescentar informações capazes de demonstrar qual equipamento produziu aquele registro e se o conteúdo permaneceu íntegro depois de sua geração.”
Onde entra o OM-BR
O Brasil possui uma infraestrutura própria para certificados relacionados a objetos metrológicos.
O Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) integra a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira, ICP-Brasil, como Autoridade Certificadora de primeiro nível na estrutura destinada a objetos metrológicos.
A regulamentação contempla certificados do tipo OM-BR, Objeto Metrológico, destinados aos equipamentos enquadrados nas respectivas regras.
A NIT-Dmtic-010, Norma técnica do Inmetro que estabelece quais dispositivos podem receber certificados digitais OM-BR, destinados a objetos metrológicos. Entre os equipamentos abrangidos pela norma estão bombas medidoras de combustível, balanças, taxímetros, dispositivos de controle de velocidade e medidores de consumo de água, energia e gás.
Isso não significa que todos esses equipamentos já utilizem OM-BR. Sua aplicação efetiva depende das regulamentações e autorizações específicas de cada categoria.
José Carlos destaca a complementaridade tecnológica: “A combinação entre DLMS, Security Suites SS1 ou SS2 e certificado OM-BR ICP-Brasil cria uma arquitetura em que o dado metrológico não é apenas transmitido com segurança, mas produzido como evidência verificável.”
“Nesse modelo, o DLMS organiza comunicação, objetos e eventos; as Security Suites adicionam mecanismos criptográficos; e uma identidade baseada em certificado pode vincular essas operações a um equipamento determinado”, conforme explicou José Carlos.
Do alarme antifraude à cadeia de rastreabilidade
É justamente aqui que o § 6º da Portaria 126 ganha uma leitura mais ampla.
Segurança cibernética, interoperabilidade, registro de alterações e alarme antifraude não precisam ser considerados requisitos isolados.
Podem compor uma cadeia de rastreabilidade:
dispositivo → identidade → ponto de instalação → medição ou evento → transmissão → processamento
Um alarme pode ser relacionado ao equipamento que o produziu.
Uma alteração de programação pode integrar o histórico daquele dispositivo.
Uma credencial comprometida pode ser revogada.
Uma substituição pode exigir o provisionamento de uma nova identidade.
Isso não significa que identidade criptográfica e certificados digitais eliminem furtos ou fraudes físicas. Esses problemas continuam exigindo fiscalização, engenharia, sensores, monitoramento e análise de comportamento de consumo.
A criptografia responde a uma questão diferente e cada vez mais importante:
é possível provar qual equipamento produziu aquele dado ou executou determinada operação?
Quanto mais críticos se tornam os dispositivos conectados, maior a necessidade de responder a essa pergunta.
Porque a próxima etapa da Internet das Coisas não será apenas conectar bilhões de máquinas. Será estabelecer “trust” suficiente para saber quais delas podem ser consideradas confiáveis.
Agradecemos aos engenheiros Alexandre Siffert, Managing Director e José Carlos, Diretor Técnico, ambos da CERMOB, pela disponibilidade em compartilhar seus conhecimentos e pela contribuição técnica que tornou possível aprofundar esta matéria. As explicações sobre identidade de dispositivos, Conceito Trust, DLMS/COSEM, segurança criptográfica, rastreabilidade e certificação de objetos metrológicos foram fundamentais para traduzir um tema altamente especializado e compreender seus impactos sobre a infraestrutura de medição inteligente.
Glossário técnico
AMI, Advanced Metering Infrastructure: Infraestrutura de Medição Avançada que integra medidores, redes de comunicação e sistemas de gestão.
DLMS/COSEM: conjunto de especificações internacionais utilizado para estruturar dados, serviços e comunicação em sistemas de medição inteligente.
NHI, Non-Human Identity: identidade não humana associada a máquinas, aplicações, sensores, dispositivos e outros componentes digitais.
PKI, Public Key Infrastructure: Infraestrutura de Chaves Públicas utilizada para administrar certificados, chaves criptográficas e relações de confiança.
OM-BR: categoria de certificado digital da estrutura da Autoridade Certificadora Inmetro destinada a objetos metrológicos enquadrados nas regras aplicáveis.
Identidade criptográfica: identidade sustentada por mecanismos criptográficos que permitem verificar uma entidade ou dispositivo.
Assinatura digital: mecanismo criptográfico utilizado para verificar autoria e integridade de uma informação.
Rastreabilidade: capacidade de relacionar dados e eventos à sua origem e reconstruir seu histórico.
Trust: confiança estabelecida a partir de mecanismos, credenciais, entidades e cadeias que permitem verificar afirmações de identidade e autenticidade.
Sobre a CERMOB

A CERMOB é o braço de tecnologia e inovação do Grupo ASAMAR, holding fundanda em 1932. Entrega ao mercado brasileiro e internacional soluções desenvolvidas com base em criptografia de alta performance, certificação digital (PKI) e assinatura digital nas mais diversas plataformas, inclusive IoT (Internet das coisas).
Leia outros artigos sobre a CERMOB publicados no Crypto ID.
DLMS e OM-BR: como a criptografia fortalece a medição inteligente no Brasil
Medidores inteligentes avançam no Brasil e colocam segurança dos dados no centro do debate
Ataque cibernético a usina no Reino Unido acende alerta sobre infraestrutura energética conectada
Identidade é quem você é. Identificação digital é como você prova isso. O Crypto ID trata dessa distinção desde 2014 e sobre identificação de pessoas e identidades não humanas (NHIs) com abordagem técnica e acadêmica, você só lê aqui!
Acompanhe nosso conteúdo sobre IoT – Internet of Things – Internet das coisas, e entenda porque equipamentos conectados precisam ser identificados com credenciais únicas, intransferíveis e revogáveis.










