Pesquisa da AASP mostra que alucinações, falta de supervisão e sigilo estão entre os principais riscos percebidos pelos advogados; 90,3% consideram soluções desenvolvidas para o Direito brasileiro mais seguras e eficientes
A Inteligência Artificial já entrou nos escritórios de Advocacia brasileiros, mas a elevada adoção está longe de significar confiança irrestrita na tecnologia.
Pesquisa inédita divulgada pela AASP – Associação dos Advogados mostra que 87,4% dos profissionais entrevistados já utilizam alguma ferramenta de Inteligência Artificial em sua atividade profissional e 62,1% fazem uso frequente. Ao mesmo tempo, 75,4% consideram as respostas produzidas pela IA confiáveis somente quando submetidas à revisão humana.
O levantamento ajuda a dimensionar uma questão que começa a ganhar relevância para escritórios, departamentos jurídicos e profissionais autônomos: à medida que a IA passa a participar da pesquisa jurídica, elaboração de peças, análise de jurisprudência e tratamento de informações, o debate deixa de ser apenas sobre produtividade e passa a envolver supervisão humana, segurança das informações, responsabilidade profissional e governança da tecnologia.
Adoção avançou mais rápido que a capacitação
A pesquisa foi realizada pela AASP entre 14 de maio e 14 de julho de 2026 e reuniu 1.149 respostas de associados da entidade, de diferentes estados, faixas etárias e áreas de atuação jurídica.
O questionário investigou frequência de utilização de IA, impactos sobre produtividade, confiança nas respostas produzidas pelas ferramentas, riscos percebidos, expectativas para o futuro, regulamentação, capacitação e preferência por soluções desenvolvidas especificamente para a Advocacia brasileira.
A amostra é formada majoritariamente por profissionais experientes: 81,3% têm mais de 45 anos. Em relação ao gênero, 49,9% se identificam como homens cisgênero e 43,7% como mulheres cisgênero.
Entre as áreas de atuação, Direito Civil aparece em primeiro lugar, com 31,4%, seguido por profissionais que atuam em múltiplas áreas, com 14%; Direito do Trabalho, 13,8%; Direito de Família e Sucessões, 11,6%; e Direito Empresarial, 9,7%.
O dado que chama atenção é a diferença entre adoção e preparação profissional. Embora 87,4% já utilizem IA, 85,3% reconhecem que precisam de capacitação específica para empregar essas ferramentas adequadamente na prática jurídica.
Produtividade, sim. Autonomia, não
Os ganhos de produtividade já são percebidos por grande parte dos profissionais. Para 84,3% dos participantes, a IA contribui para aumentar a produtividade em atividades como pesquisa jurídica, elaboração de peças, organização de informações e análise de jurisprudência.
São tarefas que historicamente consomem grande quantidade de tempo e que podem ser aceleradas com o apoio da tecnologia, permitindo maior dedicação a atividades estratégicas, interpretação jurídica e relacionamento com clientes.
Mas os próprios advogados estabelecem um limite importante.
Para 75,4% dos entrevistados, as respostas produzidas pela Inteligência Artificial são confiáveis desde que passem por revisão humana. Apenas uma parcela reduzida afirma confiar integralmente no conteúdo produzido pelas plataformas.
O resultado é especialmente relevante quando observado em conjunto com os riscos apontados pelos participantes.
As chamadas “alucinações” da IA, situações em que os modelos produzem informações incorretas ou inexistentes apresentadas como verdadeiras, são apontadas por 54% dos profissionais como o principal risco relacionado à tecnologia.
Na sequência aparecem o uso de IA sem supervisão humana, citado por 23,2%; a dependência excessiva da tecnologia, com 14%; e riscos relacionados ao sigilo profissional, mencionados por 7,2%.
Para a Advocacia, esses riscos ganham uma dimensão particular. Uma informação incorreta utilizada em uma peça processual, uma jurisprudência inexistente ou a inserção de dados protegidos por sigilo profissional em uma plataforma inadequada podem produzir consequências muito diferentes de um simples erro em uma aplicação cotidiana de IA.
Governança não precisa esperar uma futura lei de IA
Cerca de três em cada quatro participantes da pesquisa defendem a existência de regras específicas para disciplinar a utilização da Inteligência Artificial na Advocacia.
No detalhamento apresentado pelo levantamento, 74,2% dos respondentes afirmam que o uso de IA na profissão deve ser regulamentado, refletindo preocupações relacionadas à segurança jurídica, responsabilidade, transparência e ética.
Esse debate já vem sendo acompanhado pelo Crypto ID.

No artigo publicado no portal em abril de 2026, Camila Guimarães, Gestora de Proteção de Dados e IA no Opice Blum Advogados e professora do Insper, analisou como a regulação brasileira de Inteligência Artificial vem sendo construída simultaneamente pelas vias legislativa, setorial e executiva.
A análise mostra que, mesmo antes da aprovação de uma legislação geral sobre IA, diferentes setores e órgãos já estabelecem obrigações, diretrizes e mecanismos de supervisão. Nesse cenário regulatório fragmentado, a conclusão apresentada pela especialista é que as organizações não deveriam aguardar uma futura lei geral para começar a estruturar sua governança de Inteligência Artificial.
Para a Advocacia, a pesquisa da AASP mostra que essa discussão já chegou à prática profissional: os próprios usuários relacionam a adoção da tecnologia à necessidade de supervisão, capacitação e definição de responsabilidades.
90,3% preferem IA desenvolvida para a Advocacia brasileira
Outro resultado de destaque é a preferência por ferramentas desenvolvidas especificamente para o ambiente jurídico nacional.
Segundo a pesquisa, 90,3% dos participantes acreditam que uma solução de Inteligência Artificial desenvolvida especificamente para a Advocacia brasileira seria mais segura e eficiente do que plataformas de uso geral.
Na avaliação dos entrevistados, sistemas capazes de compreender legislação brasileira, jurisprudência, linguagem técnica e dinâmica processual ofereceriam maior confiabilidade para o trabalho jurídico.
É importante, entretanto, fazer uma distinção: o levantamento registra a percepção dos profissionais entrevistados. O resultado não constitui, isoladamente, comprovação técnica de que uma ferramenta especializada seja necessariamente mais segura que uma plataforma generalista.
A segurança efetiva de uma solução de IA depende também de fatores como arquitetura tecnológica, tratamento e armazenamento dos dados, políticas de privacidade, controle de acesso, utilização das informações para treinamento dos modelos, rastreabilidade, capacidade de auditoria e mecanismos de supervisão.
Para escritórios e departamentos jurídicos, portanto, a especialização da ferramenta pode ser um critério relevante de escolha, mas não substitui a análise sobre como a tecnologia efetivamente protege dados, documentos, estratégias processuais e informações submetidas a sigilo profissional.
95,6% esperam mudanças relevantes na profissão
A pesquisa mostra ainda que os advogados já enxergam a Inteligência Artificial como uma transformação estrutural da atividade profissional.
Para 95,6% dos participantes, a tecnologia provocará mudanças relevantes na Advocacia nos próximos dez anos. Entre eles, 77,5% acreditam que essas transformações serão profundas.
Apesar disso, a percepção predominante não é de substituição dos profissionais.
Os entrevistados consideram que a IA deverá assumir principalmente atividades operacionais e repetitivas, enquanto estratégia, interpretação jurídica, julgamento e relacionamento humano continuarão essencialmente associados ao trabalho dos advogados.

“A pesquisa demonstra que a Advocacia entrou em uma nova etapa de maturidade em relação à Inteligência Artificial. A tecnologia deixou de ser uma tendência para se tornar parte da rotina profissional. O desafio agora é preparar a Advocacia para um futuro em que inovação, conhecimento e segurança caminhem juntos”, afirma Paula Lima Hyppolito Oliveira, Presidente da AASP.
Para a Associação, o levantamento representa um retrato do estágio atual da Advocacia diante da Inteligência Artificial e reforça que a transformação da profissão deverá ser acompanhada pela qualificação permanente dos profissionais e pelo desenvolvimento de soluções concebidas para as necessidades do ecossistema jurídico brasileiro.
Sobre a AASP
A AASP – Associação dos Advogados é uma das principais parceiras institucionais da Advocacia no Brasil e atua na oferta de serviços voltados ao desenvolvimento profissional e ao fortalecimento do ecossistema jurídico.
A Associação mantém programação de cursos sobre temas jurídicos e um portfólio de serviços que inclui plataforma de assinaturas digitais, ferramenta de verificação de provas digitais, software para gestão de escritórios e processos, sistema de intimações on-line com uso de Inteligência Artificial, emissão e renovação de certificados digitais, publicações especializadas, clipping diário de notícias e sistema de pesquisa de jurisprudência.
Fundada há 83 anos, a entidade possui atuação nacional e reúne cerca de 75 mil associadas e associados em todos os Estados do país.
A AASP também incorporou a agenda ESG às suas iniciativas. A adesão a programas de redução e compensação de carbono resultou na conquista do selo VGP. Segundo a entidade, a estratégia busca integrar tecnologia, conhecimento e sustentabilidade à sua missão de facilitar e modernizar o exercício da Advocacia no Brasil.








