IA na advocacia é foco desta análise sobre as tendências apresentadas no Legal Tech Talk e no Legal Innovators Europe que estão transformando setor jurídico
Por Sávio Andrade

Voltei de duas semanas na Europa — entre o Legal Tech Talk, em Londres, e o Legal Innovators Europe, em Paris — com uma convicção que atravessou praticamente todos os palcos e conversas: a inteligência artificial jurídica deixou de ser promessa e virou rotina, mas o verdadeiro desafio não está mais na ferramenta. Está nas pessoas e nas organizações que precisam aprender a trabalhar de um jeito diferente.
A frase que melhor resume o momento ouvi de um experiente líder do setor: a tecnologia muda muito rápido, mas as pessoas mudam muito devagar. Há quem estime que a tecnologia esteja cerca de dezoito meses à frente de seus usuários.
O diferencial competitivo dos próximos anos, portanto, não será ter a melhor ou a maior quantidade de IA — será a capacidade de ajudar as pessoas a se adaptarem, aprenderem e mudarem o modo como criam e entregam valor.
O gargalo se inverteu
Durante anos, o custo estava em produzir: pesquisar, redigir, resumir. A IA derrubou esse custo — uma primeira minuta que levava horas hoje leva minutos. O que ficou caro foi verificar. Para identificar com segurança um resultado convincente, porém errado, é preciso mais expertise do que para produzi-lo do zero: é necessário já ter a resposta certa na cabeça para enxergar a errada.
Da fluência ao julgamento
Não por acaso, a palavra “fluência” dominou os debates — ainda sem uma definição única, ainda que escolas, bancas e escritórios já reescrevam currículos e critérios de contratação em torno dela. A leitura mais útil que trouxe organiza a fluência em três estágios: o fundacional (saber verificar criticamente o que a IA entrega), o operacional (transformar tarefas em fluxos de trabalho confiáveis e repetíveis) e o estratégico (decidir o que redesenhar, o que deixar de cobrar como antes e quem responde quando algo dá errado). Uma frase projetada em um dos workshops ficou comigo: o objetivo é treinar bons advogados na era da IA, e não operadores de IA.
Soberania, sigilo e confiança
Para uma audiência de tecnologia e segurança da informação, o tema mais sensível foi a soberania de dados. É preciso tratá-la como um espectro, não como um rótulo: ela depende de quem construiu o modelo, de onde os dados são processados, de quem tem acesso operacional e de como se cumprem regras de privacidade.
Para o advogado, há uma camada adicional e inegociável — o sigilo profissional. Um alerta concreto: uma decisão norte-americana de fevereiro de 2026 considerou plenamente acessíveis os prompts de um réu que usou IA para montar a própria defesa. A lição é direta: ao usar essas ferramentas, podemos estar expondo o próprio raciocínio privilegiado. E, nos fluxos agênticos, a complexidade cresce, porque subprocessadores podem enviar tarefas para fora da jurisdição sem que se perceba — o que torna a leitura atenta dos contratos com fornecedores essencial.
Ainda assim, o consenso foi pragmático: um escritório que se recuse a usar IA pode desaparecer em poucos anos. A questão deixou de ser “se”, e passou a ser “até que ponto” e “com qual governança”. Vale lembrar, como provocou um dos painelistas, que a disputa por adoção muitas vezes se decide pela experiência do usuário — assim como no streaming de música —, e não apenas pela regulação.
Desenvolver internamente, terceirizar e medir
Outro debate franco girou em torno do paradoxo entre desenvolver internamente ferramentas e terceirizar (build or buy). Com a velocidade atual do mercado, é quase impossível acertar o equilíbrio, e a maioria das organizações acabou em um modelo híbrido. Incubadoras e programas de pilotos mostraram um caminho disciplinado: testar com advogados reais, manter o humano no circuito e aceitar que aprender o que não funciona também é um bom resultado.
Quanto ao retorno sobre o investimento, ouvi uma confissão recorrente: ele ainda é difícil de medir, e o primeiro indicador prático costuma ser simples — os advogados gostam de usar a ferramenta e voltam a ela. Por trás disso, há um ingrediente cultural: ambientes que toleram o erro e estimulam a autonomia no aprendizado adotam tecnologia com muito mais naturalidade.
Insights importantes
Saí dos dois eventos convencido de que estamos diante da maior transformação do setor em décadas — e de que ela pode ser positiva. Mas o resultado dependerá menos do software e mais de escolhas humanas: como redesenhamos o trabalho, como preservamos a confiança de clientes e reguladores, como formamos julgamento e discernimento na nova geração e como protegemos aquilo que é a essência da advocacia, a confidencialidade.
No Machado Meyer, acompanhamos de perto essas discussões globais justamente porque acreditamos que o futuro da profissão será definido por quem souber conjugar inovação e responsabilidade. A tecnologia correu na frente. Cabe a nós, advogados, garantirmos que o julgamento e a confiança corram junto.
Sobre Machado Meyer Advogados

Machado Meyer Advogados – Fundado em 1972, o Machado Meyer é um dos mais respeitados escritórios de advocacia do Brasil. O escritório cresceu acompanhando o ritmo acelerado de expansão do Brasil e trabalha para oferecer soluções jurídicas inteligentes para impulsionar os negócios e transformar a realidade dos clientes e da sociedade. Oferece assistência legal a clientes nacionais e internacionais, incluindo grandes corporações dos mais variados setores de atividades, instituições financeiras e entidades governamentais. O escritório está presente em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Nova York. Para mais informações, acesse o site: www.machadomeyer.com.br e leia os artigos publicados aqui no Crypto ID escritos por seus advogados nesse link!
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