Autocustódia, blockchain e novas infraestruturas financeiras ampliam a discussão sobre quanto controle o usuário realmente exerce sobre seus próprios ativos
Por Guilherme Campos, cofundador e COO da DSEC Labs

Nas últimas duas décadas, o sistema financeiro mudou completamente a forma como as pessoas se relacionam com o dinheiro. Saímos das filas nas agências para o internet banking e, depois, para aplicativos capazes de realizar pagamentos, transferências e diferentes operações financeiras em poucos segundos.
A experiência evoluiu. Mas uma questão permanece: quanto mudou, de fato, a relação de controle entre o usuário e o próprio dinheiro?
Digitalizar uma experiência financeira não significa necessariamente transformar sua arquitetura. Na maior parte dos serviços tradicionais, o cliente ganhou velocidade e conveniência, mas continua dependendo de uma instituição para manter seus recursos e intermediar sua relação com o sistema financeiro.
É nesse ponto que blockchain começa a representar uma transformação mais profunda do que simplesmente a negociação de ativos digitais. A possibilidade de utilizar carteiras não custodiais introduz uma lógica diferente: em determinadas estruturas, o próprio usuário pode manter o controle das credenciais que permitem movimentar seus ativos, em vez de delegar integralmente essa função a um intermediário.
É uma mudança técnica, mas também conceitual. Depois de anos digitalizando a interface dos serviços financeiros, começamos a discutir uma transformação da própria infraestrutura.
Isso não significa, porém, que autocustódia seja sinônimo de ausência de responsabilidade. Pelo contrário. Quanto maior o controle concedido ao usuário, maior a necessidade de construir mecanismos de segurança, proteção de credenciais, autenticação e recuperação que tornem essa experiência viável para pessoas que não dominam blockchain.
Esse talvez seja um dos principais desafios do setor. O consumidor não deveria precisar entender sobre redes, protocolos ou chaves privadas para utilizar uma infraestrutura blockchain. Poucas pessoas conhecem a tecnologia por trás de uma transferência via Pix e nem por isso deixam de utilizá-la diariamente. Com blockchain, precisamos chegar ao mesmo nível de simplicidade.
Talvez a adoção em massa aconteça justamente quando o usuário deixar de perceber que está utilizando essa tecnologia. Para ele, a experiência precisa ser tão simples quanto entrar em um aplicativo financeiro, consultar saldo, receber recursos ou realizar um pagamento. A sofisticação pode estar no backend.
Essa discussão também ajuda a amadurecer o conceito de self-bank. A ideia não deveria ser interpretada como o desaparecimento dos bancos ou das instituições financeiras. Bancos, instituições de pagamento, provedores de câmbio, agentes de compliance e outros participantes continuam exercendo funções essenciais e submetidas a regras específicas.
A transformação está na possibilidade de o usuário ter mais controle sobre determinados ativos, enquanto diferentes prestadores continuam compondo a infraestrutura necessária para que aquela experiência aconteça.
É justamente nesse cenário que os provedores e agregadores de infraestrutura ganham relevância. Nem toda empresa precisa executar diretamente todas as atividades existentes por trás de uma solução financeira. É possível integrar diferentes instituições e tecnologias em uma única experiência, mantendo cada atividade regulada sob responsabilidade de quem está autorizado a executá-la.
Essa lógica também derruba uma ideia que acompanhou blockchain durante muitos anos: a de que inovação significaria necessariamente substituir o sistema financeiro tradicional. O caminho que começa a se desenhar parece ser mais de integração do que de substituição.
Blockchain não precisa competir com o Pix. Autocustódia não precisa significar o fim das instituições financeiras. E descentralização não precisa significar ausência de regulação.
Ao contrário, à medida que essas tecnologias deixam o ambiente experimental e passam a sustentar produtos utilizados no cotidiano, segurança e conformidade precisam fazer parte da arquitetura desde o início. Isso exige que cada empresa compreenda claramente o papel que desempenha na cadeia e os limites regulatórios correspondentes à sua atividade.
O desafio para os próximos anos será combinar duas coisas que, durante muito tempo, pareceram distantes: a autonomia proporcionada por novas infraestruturas financeiras e a simplicidade que o consumidor aprendeu a esperar dos bancos digitais.
Talvez a próxima grande transformação financeira seja menos visível do que imaginamos. O aplicativo pode continuar simples. O pagamento pode continuar acontecendo em segundos. A diferença estará na infraestrutura e no nível de controle que o usuário poderá exercer sobre aquilo que é seu.
Quando conseguirmos oferecer mais autonomia sem transferir complexidade para o consumidor, blockchain deixará de ser uma tecnologia que precisa ser explicada antes de ser usada.
E talvez esse seja justamente o momento em que ela terá se tornado, de fato, infraestrutura financeira.
Guilherme Campos é cofundador e COO da DSEC Labs, empresa brasileira especializada no desenvolvimento de infraestrutura financeira baseada em blockchain.
A DSEC Lab é uma empresa brasileira fundada em 2024 por três engenheiros, com atuação no ecossistema de Bitcoin e finanças descentralizadas. A companhia desenvolve soluções voltadas à autonomia do usuário na gestão de ativos digitais, com foco em segurança, autocustódia e redução da dependência de intermediários. Entre suas soluções estão o COLDKIT, destinado ao armazenamento e à autocustódia de bitcoins, e o Alfred P2P, plataforma voltada à compra descentralizada de Bitcoin.
A empresa foi fundada por Leonardo Maximiliano, Guilherme Campos e Giovanni Bassi, profissionais com perfis complementares nas áreas de tecnologia, gestão, empreendedorismo e mercado de criptoativos
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