Durante muito tempo, viajar para a Argentina significou fazer uma pequena engenharia financeira antes mesmo de pedir o primeiro choripán, mas não é o Pix internacional — ainda
O Banco do Brasil passou a oferecer uma solução que permite que brasileiros paguem compras em estabelecimentos físicos na Argentina usando Pix — inclusive aqueles que não são clientes da instituição. A iniciativa representa um novo capítulo na evolução do sistema de pagamentos instantâneos brasileiro e aponta para um movimento maior de integração financeira regional.
Do choripán ao hotel: Pix também no exterior
Na prática, o funcionamento é bastante semelhante ao uso cotidiano do Pix no Brasil. O turista brasileiro encontra um QR Code no estabelecimento argentino, abre o aplicativo do seu banco no Brasil, escaneia o código, confere os dados da transação e confirma o pagamento.
A principal diferença ocorre nos bastidores. No momento da transação, o Banco do Brasil realiza automaticamente a conversão cambial de reais para pesos argentinos. O valor é debitado da conta do cliente no Brasil em reais, enquanto o comerciante recebe o pagamento em pesos na Argentina.
Antes da confirmação, o aplicativo exibe todas as informações da operação: valor em pesos, valor convertido em reais e o IOF incidente sobre a transação.
Para o usuário final, a experiência permanece praticamente idêntica à de um Pix doméstico — simples, instantânea e sem necessidade de cadastro prévio.
Mais de 6 mil estabelecimentos já habilitados
Neste primeiro momento, a funcionalidade está disponível em estabelecimentos credenciados ao Banco Patagonia, instituição argentina que integra o conglomerado do Banco do Brasil.
Segundo o banco, mais de 6 mil pontos comerciais em Buenos Aires e em outras cidades argentinas já estão preparados para receber pagamentos por meio da solução.
A identificação é simples: os comércios exibem adesivos ou placas indicando a aceitação de Pix.
A infraestrutura, porém, foi desenhada para ser ampliada. A expectativa é que, no futuro, qualquer comerciante argentino possa aceitar pagamentos via Pix, mesmo sem relação direta com o Banco Patagonia.
Integração tecnológica e operação cambial automática
A solução foi desenvolvida por meio de uma parceria tecnológica entre o Banco do Brasil, o Banco Patagonia e a plataforma de cobrança Wapa. A operação também conta com a integração da Coelsa, empresa responsável por infraestrutura tecnológica que conecta bancos, adquirentes e carteiras digitais no ecossistema de pagamentos latino-americano.
O diferencial do modelo está na integração da operação dentro do próprio conglomerado bancário. Isso reduz a dependência de múltiplos intermediários financeiros e simplifica o processo de liquidação internacional.
Especialistas apontam que esse tipo de verticalização diminui riscos operacionais e legais em comparação com modelos que dependem de diversas instituições financeiras em diferentes países.
Não é o Pix internacional — ainda
É importante distinguir essa iniciativa do chamado “Pix internacional”, projeto que faz parte da agenda do Banco Central do Brasil.
Para que o Pix funcione como um sistema de pagamentos instantâneos entre países — com liquidação direta entre bancos centrais — seria necessário um acordo formal entre as autoridades monetárias das nações envolvidas.
O que o Banco do Brasil implementou é, portanto, uma solução privada que utiliza a infraestrutura do Pix no Brasil combinada com integração bancária no exterior.
Ainda assim, a iniciativa sinaliza o potencial do sistema brasileiro de pagamentos instantâneos para além das fronteiras nacionais.
Movimento de integração financeira regional
A expansão do Pix para a Argentina também acompanha um movimento crescente de interoperabilidade entre sistemas de pagamentos na América Latina.
Em fevereiro, o Banco do Brasil lançou a operação inversa: clientes argentinos do Banco Patagonia já podem realizar pagamentos no Brasil usando QR Code Pix diretamente pelo aplicativo do banco.
Além disso, fintechs já vinham explorando caminhos semelhantes. O Mercado Pago, por exemplo, permite desde 2025 que turistas brasileiros paguem com Pix em estabelecimentos argentinos por meio de QR Codes em maquininhas da empresa.
A diferença, no caso do Banco do Brasil, está na integração completa da operação dentro do próprio grupo financeiro, o que tende a tornar o processo mais eficiente.
Um passo para o Pix global
Mais do que facilitar a compra de um choripán em Buenos Aires ou o pagamento de um hotel em Bariloche, a iniciativa aponta para uma transformação mais ampla no sistema de pagamentos internacionais.
Se o Pix revolucionou as transferências dentro do Brasil ao eliminar intermediários e reduzir custos, a sua expansão para o exterior pode representar o próximo passo: tornar pagamentos internacionais mais simples, rápidos e transparentes.
A Argentina pode ser apenas o primeiro destino de uma estratégia que, no futuro, pretende levar o Pix para outros países da América, Europa e Ásia — especialmente aqueles com grande circulação de brasileiros.

Conheça nossa coluna sobre o Mercado Financeiro, leia outros artigos e acompanhe os principais eventos do setor.
Siga o Crypto ID no LinkedIn agora mesmo!































