Identidade digital, biometria e Pix estão transformando pagamentos, combinando segurança e conveniência simplificando transações financeiras
Por Fulvio Mascara

Durante muito tempo, a evolução dos pagamentos esteve associada à substituição de um objeto por outro. O dinheiro deu lugar ao cartão, e, mais recentemente, a aproximação com o celular e o Pix reduziram ainda mais o número de etapas necessárias para concluir uma transação. O próximo movimento parece apontar para uma mudança mais profunda: a retirada do próprio dispositivo da jornada de pagamento.
Essa transformação está diretamente ligada à evolução da identidade digital. Em vez de provar quem somos por meio de algo que possuímos, como um cartão ou telefone, ou de algo que sabemos, como uma senha, a tendência é utilizar cada vez mais características do próprio indivíduo para autenticar uma operação.
Para entendermos essa transformação em curso, precisamos resgatar alguns aspectos da evolução dos pagamentos. De acordo com a pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, realizada pela Deloitte, 83% das transações bancárias no país já acontecem por canais digitais e 78% são realizadas pelo mobile banking. confirmando o celular como principal ambiente de interação entre clientes e instituições financeiras.
Nos pagamentos presenciais, a mesma evolução pode ser observada. Dados divulgados pela Visa em 2025 mostram que quase 70% das transações com cartão no Brasil já eram realizadas por aproximação, com crescimento de quase 40% no volume da modalidade em um ano.
O aprendizado dessas trajetórias é importante e revela que o consumidor não está necessariamente buscando mais tecnologia. Ele está buscando menos etapas e a inovação que ganha espaço é aquela capaz de fazer do seu próprio corpo a experiência.
É nesse contexto que a biometria avança. Uma pesquisa também da Visa, realizada em parceria com a AYTM Research, já apontava uma forte receptividade dos brasileiros ao uso da tecnologia: 89% dos entrevistados consideravam a biometria mais fácil de utilizar do que senhas e 85% a percebiam como mais rápida. O estudo também identificou que 98% demonstravam interesse em utilizar algum método biométrico para realizar pagamentos.
A evolução, entretanto, não significa simplesmente substituir uma senha por uma impressão digital ou pelo reconhecimento facial. O que está em transformação é o próprio conceito de autenticação. Tecnologias de identidade passam a combinar diferentes sinais para determinar, com maior precisão, se uma determinada operação está sendo realizada pela pessoa legítima e em um contexto compatível com seu comportamento.
A própria agenda tecnológica dos bancos já reflete essa preocupação: as instituições financeiras vêm ampliando investimentos em inteligência artificial, analytics e Big Data, enquanto recursos de IA passam a ser aplicados também na detecção e prevenção de fraudes, de acordo com a pesquisa da Febraban em parceria com a Deloitte.
A consequência é que segurança e experiência do usuário deixam de ser problemas independentes. A autenticação precisa ser suficientemente robusta para impedir uma fraude, mas também suficientemente simples para não transformar cada pagamento em uma sequência de confirmações.
É por isso que começam a ganhar espaço experiências de pagamento baseadas em biometria que vão além dos métodos já conhecidos. O reconhecimento da palma da mão, por exemplo, combina características da palma com elementos biométricos internos, como o padrão das veias. Em aplicações financeiras, esse tipo de tecnologia pode permitir que a identidade do usuário seja vinculada a uma credencial de pagamento e utilizada posteriormente para autenticar uma transação sem a necessidade de cartão, telefone ou senha.
O ponto mais relevante, porém, não está necessariamente na palma da mão. Está na possibilidade de transformar a identidade em uma espécie de camada invisível da jornada financeira. Esse movimento já aparece em diferentes experimentações do mercado. Biometria facial, impressão digital, reconhecimento ocular e outras formas de autenticação estão sendo incorporadas a jornadas digitais com o objetivo de reduzir a dependência de senhas e tornar a confirmação de identidade menos perceptível para o usuário.
O Brasil tem características que favorecem essa evolução. A rápida disseminação do Pix criou uma infraestrutura de pagamentos instantâneos e incorporou ao cotidiano uma expectativa de velocidade que tende a se estender para outras etapas da jornada. Ao mesmo tempo, a popularização da aproximação mostrou que o consumidor está disposto a abandonar procedimentos tradicionais quando percebe ganho de conveniência sem perda de confiança.
Isso abre espaço para uma nova geração de interfaces financeiras. O pagamento pode deixar de ser uma ação explícita – abrir o aplicativo, selecionar uma função, escanear um código, inserir uma senha – e se aproximar de uma interação natural com o ambiente. Mas essa transição não acontecerá apenas pela disponibilidade tecnológica. Identidade biométrica envolve dados extremamente sensíveis e exige uma arquitetura que considere privacidade, consentimento, governança, criptografia, gestão de riscos e conformidade regulatória desde a concepção. A evolução da experiência não pode significar uma simplificação da segurança nos bastidores.
O mercado financeiro brasileiro já demonstrou capacidade de absorver mudanças profundas em escala. O Pix é o exemplo mais evidente. A aproximação também deixou de ser novidade e passou a ser comportamento cotidiano. Agora, a discussão começa a avançar para uma etapa em que o próprio corpo pode se tornar parte da infraestrutura de autenticação.
Se essa evolução se consolidar, o pagamento do futuro não será necessariamente percebido como uma tecnologia. Será apenas uma ação natural, em que a confirmação de identidade acontece de maneira quase invisível. A verdadeira inovação, nesse caso, não estará em criar mais uma forma de pagar. Estará em fazer com que pagar exija cada vez menos esforço, sem que isso signifique abrir mão da confiança necessária para que a transação aconteça.
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