Hospitais, laboratórios e operadoras ampliam o uso estratégico de dados para integrar informações clínicas e apoiar decisões
Hospitais, laboratórios e operadoras de saúde acumulam milhões de informações a cada consulta, exame e procedimento. Durante anos, boa parte desses registros permaneceu restrita à finalidade para a qual foi originalmente produzida. Agora, o setor começa a enfrentar outro desafio: conectar informações dispersas e transformá-las em inteligência para apoiar decisões, melhorar a eficiência das operações e identificar novas oportunidades de negócio.
O movimento de grandes operadoras reforça essa mudança. Em junho, a Hapvida anunciou uma parceria com a portuguesa Promptly Health para integrar sua estrutura de pesquisa clínica a uma rede internacional de dados de saúde. O ecossistema combinado alcança mais de 70 milhões de vidas e conecta instituições de diferentes países europeus.
A proposta é estruturar informações já produzidas pela operadora para ampliar seu uso em pesquisas sobre tratamentos, medicamentos e desfechos clínicos. No anúncio da parceria, Rodrigo Sardenberg, diretor de pesquisa clínica da Hapvida, afirmou que o Brasil possui uma “riqueza extraordinária de dados clínicos” ainda pouco visível para a pesquisa internacional.
O interesse também tem dimensão econômica. Estudo da consultoria L.E.K., divulgado pelo Futuro da Saúde, projetava que o mercado global de monetização de dados de saúde poderia movimentar cerca de US$ 900 milhões em 2028, com a América Latina representando entre 10% e 20% desse total.
Da informação isolada à inteligência
A existência de grandes volumes de dados, no entanto, não significa que essas informações estejam prontas para orientar decisões.
É nesse contexto que Márcio Oliveira, especialista em desenvolvimento de novos negócios na área de saúde, concentra parte de sua atuação. À frente de iniciativas voltadas à integração entre operação, tecnologia e estratégia, ele acompanha uma estrutura que reúne mais de 700 mil exames processados e 110 mil atendimentos médicos por mês, além de uma rede com mais de 2 mil profissionais da saúde.
A escala da operação tornou evidente um problema comum ao setor: as informações existem, mas muitas vezes permanecem distribuídas entre diferentes sistemas, áreas e etapas da jornada do paciente.
Exames laboratoriais produzem uma base de dados, atendimentos médicos geram outra, enquanto produção médica, procedimentos e indicadores operacionais seguem caminhos distintos.
Uma das iniciativas desenvolvidas nesse ambiente é a MedHub, estrutura que busca conectar essas informações e transformá-las em indicadores para apoiar decisões relacionadas à eficiência, à governança e ao desenvolvimento de novos serviços.

“Na prática, integrar essas informações permite enxergar o que os dados isolados não mostram: onde estão os gargalos, em quais períodos há maior demanda, como distribuir melhor equipes e recursos e até quais serviços podem ser aprimorados ou criados”, explica Oliveira.
A proposta coloca a MedHub dentro de um movimento que começa a ganhar espaço na saúde: utilizar informações produzidas diariamente não apenas para registrar o atendimento realizado, mas também para compreender o funcionamento da própria operação.
Para Márcio, essa mudança altera inclusive a maneira como empresas de saúde podem pensar novos negócios.
“Durante muito tempo, cada área olhou para o dado necessário para executar a própria função. Quando conseguimos conectar essas informações, começamos a enxergar relações que antes estavam escondidas. O dado deixa de ser apenas um registro do que aconteceu e passa a ajudar a decidir o que fazer a partir dali”, afirma.
Na prática, um aumento de determinados exames em uma região, associado ao perfil dos atendimentos médicos e à demanda por procedimentos, por exemplo, pode revelar necessidades assistenciais, gargalos de capacidade ou oportunidades para novos serviços. O valor não está necessariamente em produzir mais informação, mas em estabelecer relações entre bases que antes eram analisadas separadamente.
Governança passa a acompanhar a integração
Esse desafio ganha dimensão ainda maior em um país que já produz dados de saúde em larga escala. A expansão de prontuários eletrônicos, plataformas digitais, laboratórios, dispositivos e sistemas de gestão multiplicou os pontos de geração de informação. Ao mesmo tempo, aumentou a necessidade de estabelecer critérios de governança, segurança e utilização desses registros.
Para estruturas como a MedHub, portanto, a discussão não se resume à tecnologia utilizada para reunir bases. Ela envolve determinar quais informações são relevantes, como podem ser cruzadas e, principalmente, quais decisões podem ser tomadas a partir delas.
A tendência observada em grandes grupos como a Hapvida mostra que os dados clínicos começam a ocupar uma posição diferente dentro da estratégia das empresas de saúde. Mas o movimento não depende apenas do tamanho das bases disponíveis.
Em um setor que já produz informação em escala, a próxima vantagem competitiva pode estar na capacidade de conectar registros dispersos, interpretá-los e transformá-los em decisões.
A disputa, portanto, começa a mudar de lugar: de quem possui mais dados para quem consegue extrair mais inteligência deles.
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