PoliHealth reúne genética, exames clínicos, histórico familiar e hábitos de vida para transformar dados dispersos em apoio à decisão durante a consulta
A inteligência artificial começa a avançar sobre uma das áreas mais sensíveis da saúde: o cruzamento de dados clínicos e genéticos de uma mesma pessoa para apoiar decisões médicas.
É nesse mercado que entra a PoliHealth, startup brasileira que desenvolveu uma plataforma capaz de reunir exames laboratoriais, informações genéticas, histórico familiar e hábitos de vida do paciente em uma única interface. A proposta é fazer com que informações que hoje permanecem espalhadas entre prontuários, laudos e relatórios genéticos possam ser recuperadas e relacionadas justamente no momento da consulta.
A empresa chama a solução de “prontuário de precisão” e afirma ser a primeira plataforma brasileira com essa abordagem. O modelo também evidencia uma mudança importante na aplicação da IA à saúde: em vez de apenas registrar o que já aconteceu com o paciente, os sistemas começam a interpretar diferentes conjuntos de dados para apontar relações que podem merecer a atenção do profissional.
Quando o exame genético deixa de ser apenas um laudo
O avanço dos testes genéticos criou um problema novo para médicos e pacientes: quanto mais dados são produzidos, mais difícil pode ser utilizá-los no cotidiano.
Um mapeamento genético pode reunir centenas de análises de predisposição, metabolismo e resposta a medicamentos. Na prática, parte dessas informações acaba registrada em relatórios extensos que dificilmente serão consultados toda vez que um novo exame laboratorial ou sintoma aparecer.

“A gente tinha a resposta, mas ela não chegava na hora da decisão”, diz Rodrigo Faria Matheucci, CEO da PoliHealth e sócio da DNA Club.
Segundo ele, o problema não está necessariamente na ausência de informações. “O problema nunca foi a falta de dados. O problema era integração: juntar todas as ilhas de informação da saúde de uma pessoa.”
É justamente aí que entra a inteligência artificial. A plataforma busca relacionar informações que, observadas isoladamente, poderiam não chamar atenção.
O próprio Rodrigo cita seu histórico como exemplo. Seu mapeamento genético indicou risco elevado para hemocromatose, condição já diagnosticada em sua mãe.
Os exames laboratoriais isolados não apontavam necessariamente a doença, mas o cruzamento da predisposição genética com a evolução dos níveis de ferro e ferritina levou o sistema a destacar a necessidade de acompanhamento.
“É a diferença entre um dado genético parado num relatório e um dado que reaparece na hora da decisão”, afirma.
Farmacogenética coloca outro volume de dados na consulta
Outra frente explorada pela plataforma é a farmacogenética, área que avalia como características genéticas podem alterar a resposta de uma pessoa a determinados medicamentos.
A PoliHealth integra um motor de farmacogenética desenvolvido em parceria com a DNA Club. A ideia é permitir que essas informações também sejam consideradas pelo profissional ao analisar o histórico do paciente.
Esse tipo de aplicação ajuda a explicar por que genética e inteligência artificial começam a se aproximar. Não basta produzir mais dados sobre o paciente: é necessário criar mecanismos capazes de recuperar, relacionar e contextualizar essas informações sem retirar do médico a responsabilidade pela decisão clínica.
Segundo a empresa, as sugestões apresentadas pela plataforma mostram o raciocínio utilizado e funcionam como apoio ao profissional.
“O profissional prevalece, sempre e por design”, afirma Rodrigo.
Piloto já reúne médicos, nutricionistas e mais de 200 pacientes
Antes do lançamento comercial, a PoliHealth iniciou em junho um piloto com aproximadamente 20 médicos e nutricionistas e mais de 200 pacientes cadastrados.
Parte dos profissionais que inicialmente utilizava gratuitamente a ferramenta passou a contratar a plataforma, segundo a startup.
A estratégia de entrada no mercado está concentrada inicialmente nos consultórios, e não em hospitais ou grandes operadoras de saúde. A empresa argumenta que a adoção individual pelos profissionais permite ciclos de contratação menores e responde a uma dificuldade cada vez mais presente na medicina: o volume de informações que precisa ser analisado em consultas cada vez mais digitalizadas.
A PoliHealth afirma que, em sua base inicial, o intervalo médio entre o primeiro contato com o profissional e a assinatura é de cerca de dez dias.
A startup também ficou em sexto lugar entre mais de 100 participantes do Innovation Race, competição organizada pela FCJ, e mantém parceria com empresas do Grupo DNA.
Quem poderá acessar o DNA do paciente?
A concentração de informações genéticas e clínicas em plataformas digitais abre, porém, outra discussão inevitável: quem controla esses dados e para quais finalidades eles poderão ser utilizados?
A questão ganhou ainda mais relevância depois do caso da 23andMe. A empresa norte-americana, que popularizou testes genéticos diretamente ao consumidor, entrou em processo de falência em 2025, colocando em discussão o destino de um banco que reunia informações genéticas de milhões de clientes.
No modelo anunciado pela PoliHealth, os dados genéticos são anonimizados e o acesso é controlado pelo paciente. A empresa afirma seguir a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e diz que não vende nem compartilha essas informações com seguradoras, laboratórios ou empresas farmacêuticas.
Esse ponto pode se tornar tão relevante quanto a própria inteligência artificial utilizada pela plataforma. Dados genéticos são permanentes, altamente sensíveis e podem revelar informações não apenas sobre uma pessoa, mas também sobre seus familiares.
Meta é chegar a 30 mil profissionais
À frente da startup estão Rodrigo Faria Matheucci e Felipe Spritzer, sócio investidor e advisor da empresa e fundador da Portfel.
Spritzer afirma que decidiu investir depois de analisar justamente a dificuldade de transformar informação genética em algo utilizável na rotina médica.
“Estudei a tese a fundo antes de decidir investir. O que me convenceu foi ver que o problema não é falta de dado genético, é falta de quem traduz esse dado em decisão, e isso tem escala”, afirma.
A PoliHealth estabeleceu como meta alcançar 30 mil profissionais usuários em três anos e afirma já ter identificado cerca de 13 mil médicos e nutricionistas dentro do público inicial que pretende atingir.
A empresa também prepara uma versão voltada diretamente ao paciente. O aplicativo deverá funcionar como uma espécie de carteira digital de saúde, reunindo informações pessoais, inclusive genéticas, e permitindo que o usuário determine quais profissionais poderão acessá-las.
A previsão informada pela startup é iniciar os testes dessa aplicação até setembro.
A expansão ocorre em um momento no qual três movimentos começam a convergir: a disseminação da inteligência artificial entre profissionais de saúde, a redução do custo dos exames genéticos e a produção cada vez maior de dados sobre cada paciente.
A questão, portanto, deixa de ser apenas quanto sabemos sobre uma pessoa e passa a ser como transformar esse volume de informação em algo útil durante uma decisão médica, mantendo transparência, segurança e controle sobre dados extremamente sensíveis.
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