A Copa do Mundo 2026 traz um obstáculo que vai além da segurança do evento, há o desafio da confiança digital em escala global
Por Leonardo Lemes

A Copa do Mundo traz um obstáculo que vai além da segurança do evento, há o desafio da confiança digital em escala global.
O risco não está apenas nos estádios, nas redes oficiais ou nos sistemas operacionais dos países-sede.
Está na cadeia invisível que conecta torcedores, bancos, companhias aéreas, hotéis, aplicativos, patrocinadores, plataformas de ingressos, redes sociais e criminosos.
Megaeventos esportivos são vitrines de performance atlética e tornaram-se também alvos preferenciais do crime cibernético.
Nos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang, em 2018, o malware conhecido como Olympic Destroyer chamou atenção do mundo e a organização confirmou que enfrentou 12 milhões de ciberataques por dia, totalizando 600 milhões. Nas Olimpíadas de Tokyo 2020, autoridades bloquearam 450 milhões de ciberataques contra o site oficial e sistemas do comitê organizador, de acordo com o governo do país.
Autoridades russas anunciaram ter bloqueado 25 milhões de ciberataques durante a Copa de 2018. Já em 2022, entre os muitos eventos registrados, foram identificados 174 domínios maliciosos que hospedavam páginas falsas relacionadas com a Copa do Qatar e um grupo cibercriminoso ligado à China invadiu os sistemas de uma grande provedora de telecomunicações do país sede e permaneceu oculto por meses, mesmo após o encerramento dos jogos.
A mensagem é clara: grandes eventos esportivos não são apenas problemas de segurança física. São problemas de superfície de ataque distribuída, cadeia de suprimentos comprometida e fraude em escala.
Esses episódios ajudam a entender a escala do desafio. A Copa de 2026, por ser realizada no Canadá, México e Estados Unidos, representa dispersão territorial, volume de público, múltiplas jurisdições e dependência tecnológica que transforma o evento em um ecossistema digital distribuído, por conta das plataformas de venda de ingressos, credenciamento, controle de acesso, telecomunicações, energia, transporte urbano, aeroportos, hotéis, meios de pagamento, aplicativos móveis, redes Wi-Fi, transmissão de mídia, fan fests, serviços públicos locais e uma cadeia extensa de fornecedores. Cada ponto de integração vira uma possível superfície de ataque.
O NCSC do Reino Unido, em relatório sobre ameaças ao setor esportivo, destacou que o comprometimento de contas de e-mail com finalidade de fraude é um dos resultados mais comuns dos ataques contra organizações esportivas, e que ransomware também é uma ameaça relevante ao setor.
O brasileiro também correr risco
As ameaças e riscos cibernéticos não estão limitados aos países que sediam a copa. No Brasil, torcedores podem ser alvos de falsos ingressos, sites clonados, pacotes turísticos fraudulentos, promoções inexistentes, golpes com milhas, falsas centrais de atendimento, phishing com marcas de bancos, companhias aéreas e patrocinadores, além de campanhas em WhatsApp, SMS, Instagram e Telegram.
Essa ameaça ganha uma camada adicional quando se observa o histórico brasileiro de exposição de dados pessoais. Em 2021, foi noticiado um megavazamento envolvendo 223 milhões de CPFs e 40 milhões de CNPJs. Independentemente da disputa sobre origem e responsabilidade, o ponto central é outro: dados vazados aumentam a eficiência da engenharia social. Um golpe genérico diz “clique aqui para comprar ingressos”. Um golpe personalizado diz: “Ana, seu CPF foi aprovado para prioridade na compra de pacotes para a Copa; confirme seu cadastro até hoje”. A diferença entre os dois está na credibilidade percebida pela vítima.
A Copa cria narrativas perfeitas para esse tipo de exploração, pois há pré-venda de ingressos, promoção de patrocinador, voucher de viagem, milhas prestes a vencer, pendência de visto, reserva de hotel, confirmação de pagamento, sorteio de camisa oficial, alerta bancário sobre transação suspeita. Quando o criminoso combina nome, CPF, telefone, e-mail, endereço e histórico cadastral, a fraude deixa de parecer aleatória. Ela passa a parecer atendimento.
A IA generativa tende a ampliar esse problema. Ela não cria o crime, mas aumenta escala, velocidade, qualidade narrativa e personalização. Mensagens em português correto, chatbots falsos e páginas clonadas mais convincentes reduzem sinais de alerta que antes denunciavam golpes mal feitos. O crime cibernético deixa de depender apenas de volume e passa a operar também por verossimilhança.
Para empresas, a Copa exige monitoramento de uso indevido de marca, proteção de domínios, autenticação forte, resposta a phishing, threat intelligence e canais oficiais capazes de desmentir golpes com velocidade. Para cidadãos, a regra é simples: comprar apenas em canais oficiais, desconfiar de urgências, evitar links recebidos por mensagens, verificar domínios, não pagar desconhecidos via Pix, usar cartões virtuais quando possível e confirmar promoções diretamente nos canais das empresas.
A segurança da Copa de 2026 não será mensurada apenas pelo que está acontecendo dentro dos estádios. Será medida também pela capacidade de proteger milhões de pessoas que, mesmo a milhares de quilômetros dos jogos, estarão conectadas emocional, financeira e digitalmente ao evento. Em 2026, parte decisiva do jogo será disputada fora do campo, na proteção da confiança digital.
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