Últimas notícias

Fique informado

Entrevista com Dr. Renato Sabbatini, a maior autoridade em Tecnologia Médica do Brasil

28/06/2018

Dr. Renato Marcos Endrizzi Sabbatini, cientista biomédico e de computação, educador, editor, divulgador científico, escritor, empresário e administrador brasileiro

Conversamos com Dr. Renato Marcos Endrizzi Sabbatini, um dos maiores expoentes na esfera nacional e internacional da tecnologia voltada para a área de Saúde 

Dr. Renato Marcos Endrizzi Sabbatini

Seu universo abrange: Ciência da Computação; Educação e Pesquisa Educacional; Ciências e Serviços de Saúde; História e Filosofia da Ciência; Informática Médica; Neurociências e Neurologia; Fisiologia; Pesquisa e Medicina Experimental entre outros temas.

Hoje é presidente do Instituto Edumed e vice-presidente do Instituto HL7, ambos dedicados à educação e desenvolvimento na área de tecnologia em saúde. Foi também presidente e fundador da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde. É também um dos 100 Fellows Elect da nova International Academy of Health Sciences Informatics, que reúne os maior expoentes mundiais da área.

Crypto ID:  Dr. Renato Sabbatini, o que o motivou a se voltar para a área da informática em biologia e Medicina?

Dr. Renato Sabbatini: Foi minha atividade científica em neurociência no início da minha carreira. Sempre tive bastante inclinação para ciências exatas, ao ponto de hesitar em seguir a carreira em medicina ou em química e física. Ao iniciar meu doutorado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, tive necessidade de aplicar análises estatísticas complexas em grande conjunto de dados biológicos (o que hoje se chama de Big Data Analitics), o que exigia computação pesada.

Tive então que aprender a programar computadores, e como resultado boa parte da minha tese envolveu aplicações computacionais. Como fui pioneiro nessa área, como docente e pesquisador, primeiro na USP e depois na UNICAMP, acabei sendo muito solicitado a colaborar em outras pesquisas, acabei gostando e enveredei definitivamente por essa área a partir de 1983, quando fui convidado a fundar o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Informática Biomédica na UNICAMP, em Campinas, um dos primeiros da América Latina.

Crypto ID:  Você  foi  pesquisador no Instituto Max Planck em Munique, Alemanha, qual foi o aprendizado?

Dr. Renato Sabbatin: Ao completar o meu doutorado, fui para a Alemanha dar sequência a um convite como pesquisador associado, e iniciar meus trabalhos de pós-doutorado, apoiados pela FAPESP e pela Sociedade Max Planck.

Quando os colegas alemães descobriram que eu era um programador especializado em estudos de neurobiologia do comportamento, naturalmente me colocaram à cabeça de um projeto computacional bastante complexo, com imensos recursos à minha disposição, coisa que não tinha desfrutado no Brasil (e nem existiam, na época, por aqui). Isso levou a um grande amadurecimento e produtividade. Ao mesmo tempo, adquiri um dos primeiros microcomputadores comerciais à venda no mundo, e comecei a explorar esse mundo, programando centenas de aplicações, e fundando uma empresa na Alemanha, a Vortex GmBH, que comercializou meus produtos em 6 países europeus. Escrevi também meu primeiro livro na área, amplamente vendido, também.

Ao voltar ao Brasil, em 1979, percebi que a área de computação aplicada à medicina e saúde era ainda muito incipiente (e desconhecida) por aqui. Então senti-me motivado a organizar, em Ribeirão Preto, São Paulo e Campinas, uma série de cursos intitulados “Aplicações da Microinformática na Prática Clínica”, com o apoio da empresa ADP Systems e da Academia de Ciências de São Paulo, que foram os primeiros do Brasil, e obtiveram grande sucesso.

A partir da minha transferência para a UNICAMP em 1983, e com a fundação da SBIS (Sociedade Brasileira de Informática em Saúde) em 1986, minha atividade docente na área acelerou-se muito, em cooperação com dezenas de instituições e empresas.

Crypto ID: Você morou na Alemanha durante quantos anos e como foi seu retorno ao Brasil?

Renato Sabbatini, Munique, Alemanha, no Instituto Max Planck, 1979, aos 32 anos de idade

Dr. Renato Sabbatini: Morei dois anos e meio, tendo retornado em agosto de 1979 para reassumir meu cargo de professor assistente doutor em tempo integral no Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Quase que imediatamente, devido à minha experiência na área, tornei-me coordenador do Laboratório de Computação em Fisiologia Cardiovascular do Departamento, que tinha sido inaugurado com a aquisição de um supermini HP 1000, dotado de terminal impressor serial, e de uma interface de aquisição analógico-digital de sinais biológicos.

Desenvolvi muitas aplicações em FORTRAN para esse computador nos anos seguintes, inclusive pacotes estatísticos e um processador de textos (acho que o primeiro no Brasil) semelhante ao da Digital Equipment Corporation (DEC) que tinha usado extensamente na Alemanha.

Escrevi minha tese de livre docência nesse software e muitos outros documentos. Simultaneamente, meu laboratório adquiriu o primeiro microcomputador em existência no campus, um Prológica D-7000, clone do Tandy Radio Shack TRS-80, que era meu microcomputador particular. Desenvolvi um curso de fisiologia (sistemas de controle fisiológicos), com base em simulações usando o Tandy Basic Interpreter, o que gerou o primeiro artigo brasileiro nessa área.

Comecei também a desenvolver sistemas de informatização de consultórios, em cooperação com a Scopus (usando Basic e sistema operacional DOS CP/M) durante uma licença-prêmio de três meses. Iniciei projetos cooperativos com várias indústrias de informática, desenvolvendo softwares de processamento de texto, análise estatística, e dezenas de outros, inclusive em informática e educação, como certamente o primeiro hipertexto, anos antes do famoso HTTP, programas de inteligência artificial (um chatbot décadas antes dos atuais), e muitas outras aventuras interessantes e divertidas. Naturamente, fiquei muito conhecido nessa área, como um dos pioneiros, desde 1970, quando fiz meu único curso na área, de FORTRAN IV Monitor IBM-113.

Crypto ID: Conte-nos um pouco do início das suas atividades ao retomar para o Brasil, a criação do seu centro de pesquisa e do Instituto Edumed para Educação em Medicina e Saúde

Dr. Renato Sabbatini: Ao retornar ao Brasil em 1979, estava já em vigor no Brasil a aplicação da famosa Lei de Informática imposta pelo governo federal, que tinha como objetivo promover o desenvolvimento da indústria no Brasil, ao mesmo tempo dificultando muito as importações de computadores (a chamada Lei de Reserva de Mercado, coordenada por um órgão federal, a CAPRE, a partir de 1975).

Surgiram, então, várias empresas industriais, que passaram a licenciar e fabricar no Brasil, mediante um processo gradativo de substituição de exportações, equipamentos de diversos portes, como a COBRA Computadores Brasileiros (uma estatal), a Olivetti Informática, Prológica, Microdigital, HP, Itautec, entre outras. Visitei todas essas empresas para iniciar cooperações na área de informática em saúde.

Em 1982, como resultado da minha intensa (e quase solitária) atividade, fui convidado pelo reitor da UNICAMP, o médico José Aristodemo Pinotti, a criar o Núcleo de Informática Biomédica (NIB ), tendo me transferido da USP e iniciado intensa atividade de pesquisa, desenvolvimento, inovação e educação na área, até 2003, quando me aposentei da universidade, e fundei o Instituto Edumed para Educação em Medicina e Saúde, com objetivos similares ao NIB, no qual estou até hoje.

Dr. Renato Sabbatini e Dra. Silvia Helena Cardoso

Crypto ID: Sobre o Instituto Edumed, quantos cursos já foram ministrados desde sua criação e qual é o perfil dos alunos?

Dr. Renato Sabbatini: O Instituto Edumed surgiu como uma iniciativa de vários pesquisadores e professores da UNICAMP, USP e outras universidades, em cooperação com  a Associação Médica Brasileira (AMB), e o apoio da Olivetti, EMBRATEL, da Medcenter, da Biosintética (uma empresa farmacêutica), FAPESP, CNPq e outras instituições, com o objetivo de desenvolver, testar, padronizar e aplicar tecnologias de educação à distância, tais como plataformas LMS (Learning Management Systems), vídeo streaming via Internet e via satélite, etc. à área de educação continuada médica.

O Edumed nasceu inicialmente como uma ONG, que foi posteriormente, a partir de 2010, transformada em uma empresa e holding de um grupo presidido por mim e pela minha esposa, Dra. Silvia Helena Cardoso. Cerca de 70 cursos a distância e presenciais, nas mais distintas áreas das ciências da saúde, foram criados em colaboração com dezenas de instituições e professores, tais como em odontologia, neurociências, oncologia, fisiologia, estatística e medicina baseada em evidência, saúde ocupacional, e, principalmente em informática em saúde.

O perfil dos alunos (cerca de 5.000 ao longo dos 17 anos de existência do Instituto) é extremamente variado, indo desde estudantes de tecnologia em nível secundário, até pesquisadores e educadores com doutorado e pós-doutorado!

Crypto ID: Qual é o panorama atual da informática médica no Brasil? E como estamos em relação a outros Países?

Dr. Renato Sabbatini: O Brasil foi um dos primeiros países latino-americanos a assumir uma posição de destaque em informática médica e em saúde, a partir da década dos 1970s, quando começaram a surgir os primeiros grupos acadêmicos, como o HC da USP em São Paulo, a USP de Ribeirão Preto, o HC da UFRGS e da UFRJ, entre outros. Essa movimentação acabou por aproximar os grupos e pesquisadores ativos, através da criação da SBIS em Campinas, em novembro de 1986, que foi um dos grandes motores do desenvolvimento científico e técnico na área, continuando muito ativa até hoje.

A partir de 1995, com o surgimento da Internet comercial no Brasil, esse desenvolvimento passou a ter um grande ímpeto inovador, disseminação entre os profissionais de saúde, e surgimento das primeiras empresas comerciais desenvolvedoras de aplicações  e serviços no Brasil. No entanto, foi apenas a partir de 2008/2010, que esse crescimento passou a ter uma dinâmica exponencial, e gradativamente o Brasil passou a diminuir o atraso de duas décadas, pelo menos, em relação aos países mais desenvolvidos, como EUA, Canadá, e alguns europeus, principalmente na área de telemedicina, que era bem incipiente, e hoje pode se orgulhar de um desenvolvimento similar a dos outros países.

Nos últimos 4 a 5 anos, o forte movimento inovador caracterizado pelas chamadas startups, que contam com um mecanismo de financiamento privado, mais poderoso, só fez acelerar esse crescimento, e novas áreas, como computação móvel, big data, inteligência artificial, etc., passassem a ser desenvolvidas e aplicadas no Brasil, também. Hoje eu diria que o Brasil está entre os 3 principais países das Américas em termos de desenvolvimento, e, embora sempre tenhamos um relativo atraso em relação aos EUA e Canadá, acho que podemos nos orgulhar de nossas conquistas e atual status.

Crypto ID: A telemedicina é uma realidade?

Dr. Renato Sabbatini: Sim, é uma realidade poderosa, a partir do incentivo dado pelo governo federal para a criação de dois grandes projetos, a RUTE (Rede Universitária de Telemedicina), pela RNP (Rede Nacional de Pesquisa e Educação, do Ministério de Ciência e Tecnologia), e o Programa de Telessaúde na Atenção Primária, criado e mantido pelo Ministério da Saúde. Surgiram centros de P&D&I muito ativos, com centenas de novos pesquisadores e desenvolvedores envolvidos, em 11 estados, ligados a centros universitários de destaque, e muito dinheiro tem sido investido em equipamentos, redes, softwares, etc. Também foi criada a atual Associação Brasileira de Telemedicina e Telessaúde, que organiza congresso e outros eventos de grande porte, e temos também duas revistas, uma nacional e outra latino-americana. Paralelamente, surgiram várias empresas de telemedicina em várias áreas, como telecardiologia, telerradiologia, e medicina diagnóstica em geral, que têm explorado esse enorme mercado, que continua a crescer.

Crypto ID: Você contribuiu muito na elaboração das regulações do CFM –  Conselho Federal de Medicina – em relação as aplicações de tecnologia. Quais, no seu entender, foram os principais marcos do CFM em relação a tecnologia? E quais os avanços que essas regulações proporcionaram ao segmento de Saúde no país?

Dr. Renato Sabbatini: O Conselho Federal de Medicina iniciou várias colaborações com iniciativas tecnológicas na área, como por exemplo, a que eu coordenei na AMB para estabelecer um sistema de recertificação profissional de especialidades médicas, a partir de 2007, bem como com a SBIS, para estabelecer um sistema de certificação de segurança e qualidade de sistemas de registro eletrônico em saúde, inclusive no uso de certificados digitais padrão ICP-Brasil para a autenticação segura de usuários e de assinatura digital de documentos médicos eletrônicos. O CFM também estabeleceu uma Comissão Especial de Informática e Telemedicina, no qual a SBIS tem assento permanente, e que tem elaborado algumas decisões regulamentadoras profissionais e éticas muito importantes.

Quanto à certificação CFM/SBIS, eu não colaborei diretamente, mas sim como consultor técnico especializado, em uma empresa do grupo Edumed, a Sabbatini Consultores Associados, para ajudar as empresas de software a testarem e se adequarem aos requisitos da certificação. Das cerca de 50 empresas que tiveram produtos de S-RES certificados desde 2009, nosso grupo foi responsável pela consultoria de aproximadamente 30 softwares, propiciando uma grande experiência e garantia de sucesso nessa área.

A certificação CFM/SBIS é de enorme importância no cenário atual da informática médica, pois dá uma garantia institucional aos produtos de S-RES de segurança e qualidade, através de um extenso conjunto de 360 requisitos e subrequisitos. A maioria dos principais “players” empresariais conta com essa certificação, embora não seja obrigatória, por enquanto.

Crypto ID: As instituições de saúde, no mundo todo, são alvo de cyberataques por agruparem dados e informações valiosas. Você considera que já existe entre os administradores dessas instituições o entendimento de que os investimentos em segurança da informação são relevantes e fundamentais? Ou só “acordam” quando sofrem uma invasão?

Dr. Renato Sabbatini: Infelizmente a resposta ainda é que esse entendimento e os investimentos são claramente insuficientes, e isso tem causado uma grande vulnerabilidade das instituições de saúde, que são, aliás, o alvo predileto dos ataques de ransomware, roubo e perda de dados, etc., já que são instituições que não podem ficar paralisadas nem por alguns minutos, devido ao perigo que isso representa para a segurança dos pacientes e para a continuidade operacional. A situação é muito crítica, vários hospitais brasileiros foram atingidos, e a situação só tende a piorar. “Acordar” só depois de sofrer uma invasão, e ter que arcar com os imensos prejuízos, financeiros, de imagem, e outros, que uma prevenção e resposta falhas causa, é a pior maneira de enfrentar o problema.

Eu sou auditor-líder certificado internacionalmente em sistemas de gestão de segurança em informação (SGSI) e vice-relator do Grupo de Trabalho 4 (GT4) de Segurança da Informação e do Paciente, da Comissão Especial de Estudos em Informática em Saúde da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e estou muito ativo atualmente nessa área, tanto como consultor e auditor, como como professor de novos cursos, e, como já disse, ativo desde 2010 na área de certificação da SBIS/CFM, que tem um componente importante de segurança dos softwares usados nas instituições de saúde. Mas não basta usar somente um software certificado, embora eu ache que isso deveria ser obrigatório.

A segurança da infraestrutura, e a conscientização e treinamento do elo mais fraco, que é o humanware, são fundamentais, também, e para isso existem as normas ISO 27001, sendo que existe especificamente para a área de saúde, a ISO 27799 da qual eu fui o tradutor, como membro da ABNT. Infelizmente, praticamente nenhum hospital ou clínica brasileiro é certificado ou opera segundo essas normas.

Crypto ID: Você acompanha muito de perto os benefícios da Certificação Digital para o segmento de saúde. Pode nos falar um pouco sobre isso? Quais são os principais benefícios que o uso dessa tecnologia agregou ao segmento?

Dr. Renato Sabbatini: Sim, sou um grande entusiasta dessa tecnologia, desde que em 2007 o CFM passou a citar o Certificado Digital como o elemento fundamental para garantir vários aspectos da segurança dos sistemas de informação em saúde, como o Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP), tais como a garantia de integridade, confidencialidade e autenticidade das informações, através da assinatura digital. O componente ético do juramento de Hipócrates, de garantir o sigilo, a privacidade e a confidencialidade das informações coletadas sobre o paciente tem sido a principal preocupação nesse sentido.

O certificado digital segundo o padrão adotado pelo Brasil (o chamado ICP Brasil, ou Infraestrutura de Chaves Públicas) é uma solução brilhante, com alto grau de segurança e proteção das informações, tanto no banco de dados quanto nas transações, e já é obrigatório em muitas situações, como em laudos laboratoriais eletrônicos (RDC 30 da ANVISA), transações de cobrança de serviços de saúde suplementar (TISS, segundo a ANS), e nos próprios PEPs que têm existência puramente eletrônica, inclusive em telemedicina.

O certificado digital é a única tecnologia disponível que assegura simultaneamente tudo isso, e tem aplicação ideal em medicina, existindo inclusive o CRM Digital, que é a identificação do médico mediante o uso de um smartcard contendo o certificado digital privado (e-CPF) do profissional.

Crypto ID: Os prontuários eletrônicos, por exemplo, na maioria das instituições brasileiras de saúde públicas ou privadas são produzidos e armazenados de forma correta? Os recursos como assinatura com certificados digitais ICP-Brasil, armazenamento de chaves e guarda segura dos dados estão sendo aplicados?

Dr. Renato Sabbatini: Não. Considerações de custo ainda relativamente elevado para grandes instituições, dificuldades de implementação e manutenção, e um grande desconhecimento por parte das instituições e profissionais, o grau de adoção do certificado digital na área de saúde ainda é muito baixo, e algo precisa ser feito para aumentá-lo. De minha parte, tenho dado muitos cursos e palestras, com o objetivo de aumentar esse conhecimento, inclusive a criação de um Programa de Formação e Educação em Certificação em Softwares de Saúde (EduCert) dentro do Instituto Edumed. O surgimento de soluções de armazenamento na nuvem, homomogadas recentemente pelo ITI para certificados digitais tem contribuído significativamente para a maior popularização, maior facilidade de implementação e operação e menores cursos dos certificados digitais, e a saúde tem sido bem impactada por essa tendência.

Crypto ID: Quais são as consequências da falta de cuidado com as informações de exames clínicos e laboratoriais dos pacientes? Como resolver isso e qual é a sua expectativa de que esse cenário seja modificado?

 Dr. Renato Sabbatini: Podem ser potencialmente catastróficas, tanto para as instituições como para os indivíduos. Em 1987 o barramento SOA da DATASUS, a empresa do Ministério da Saúde encarregado dos programas de saúde digital e interoperabilidade, e que armazena o eMPI (electronic Master Patient Index), com os dados privados de mais de 100 milhões de brasileiros, foi quebrado e invadido por um jovem hacker carioca, que colocou todos esses dados em um provedor americano, como se fosse uma consulta ao CPF, mas desvendando publicamente dados como CPF, CNS, RG, nome, sexo, endereço, e até grupo sanguíneo. Esses dados imediatamente foram transladados para a deep web e utilizado por cibercriminosos para toda espécie de golpes e crimes.

O dano causado aos indivíduos afetados é imenso, como o roubo de identidade, golpes financeiros e de e-comécio, etc. Tudo isso devido a uma falha nos sistemas de segurança de informação mantidos pelo próprio governo, o que nos tira a confiança e credibilidade que soluções futuras venham a manter os dados dos cidadãos em segurança. A invasão maliciosa de banco de dados, mesmo que não seja para roubar dados, por sua vez, pode levar a alterações em dados clínicos que causem dano ou morte em pacientes. Não está se dando a devida importância à proteção de dados de saúde no Brasil, a situação é caótica, e vai ser agravada com a irresponsabilidade de aplicativos móveis sem qualquer preocupação com a segurança dos dados coletados.

A mudança de cenário é difícil. Envolve investimentos altos e uma conscientização maciça, bem como dar uma prioridade maior aos problemas. Infelizmente muitos vão aprender da maneira mais dura, que será processos de indenização por violação de confidencialidade, e novas leis que estão surgindo endurecendo consideravelmente as penalidades, não somente contra os transgressores, como contra os que deveriam defender esses dados, por serem seus guardiões acreditados.

Crypto ID: Estamos falando muito sobre a GDPR. Como essa regulação se aplica ao segmento de saúde? Isso está sendo discutido no Brasil?

Dr. Renato Sabbatini:  A GDPR (General Data Protection Regulation), vigente na Comunidade Européia desde junho de 2018, assim como a lei equivalente nos EUA, a HIPAA (Health Information Portability and Accountability Act), bem mais antiga, são regulamentações extremamente detalhadas e duras, com penalidades na casa dos milhões de euros ou dólares.

Não temos nada equivalente no Brasil (deveríamos ter, como falei na questão anterior). Já são discutidas timidamente, ainda, em nosso meio, e existe um grande desconhecimento sobre suas posturas. Entretanto, mesmo sites e serviços on-line que armazenam dados de cidadãos europeus fora da CE estão sujeitos à GDPR, e isso é preocupante, principalmente para multinacionais que operam no Brasil com dados de saúde. Todas deverão estar tomando providências para se adequar à GDPR.

Crypto ID: Você participa dos mais importantes eventos sobre Saúde e Tecnologia no Brasil e no Exterior. Pode nos dizer quais são os eventos que você destacaria?

Dr. Renato Sabbatini: No exterior eu destacaria os congressos anuais da HIMSS (Health Information Management and Systems Society), da AMIA (American Medical Informatics Association), da EFMI (European Federation for Medical Informatics) e os MEDINFOs (da IMIA – International Medical Informatics Association). O evento da COACH (Canadian Health Informatics Association) e da ATA (American Telemedicine Association) são fundamentais, e há vários anos procuro participar do maior número possível, pelo grande aporte de novas informações e networking que representam. No Brasil eu destacaria os congressos da SBIS e da ABTMS, assim como os eventos da Hospitalar (HIMSS@Hospitalar), HIS (Health Innovation Show), Fórum de Saúde Digital) e alguns outros, menores.

Crypto ID: Fale-nos quem é Renato Sabbatini    

Renato Sabbatin:  Sou um cientista biomédico de 71 anos e professor universitário, com um doutorado em neurofisiologia comportamental, mas tenho sido muito ativo também nas áreas de informática biomédica, telemedicina e educação à distância nas ciências da saúde. Eu também tenho minha própria instituição de pesquisa, desenvolvimento e educação sem fins lucrativos, onde sou presidente e pesquisador sênior. Outras atividades são: empreendedor de negócios, escritor de ciência para o público leigo, consultor privado. Casado, com dois filhos.

 

Para Saber Mais

URLs relacionadas:

 

Referências:

 

  Nossa coluna sobre Saúde é muito interessante, dá uma olhada!

Nenhum comentário até agora

Ir para a discussão

Nenhum comentário ainda!

Você pose ser o primeiro a iniciar a discussão.

Apenas usuários registrados podem comentar.