A IA vai transformar a segurança, mas não eliminará a necessidade de profissionais, nem de pessoas que compreendam contexto e risco
Por James Robinson

Há uma ideia preocupante ganhando espaço no setor de cibersegurança e que já começa a influenciar decisões de contratação.
É a crença de que a IA tornará a área tão eficiente que funções administrativas e profissionais em inícios de carreira se tornariam dispensáveis.
Pode parecer uma leitura lógica à primeira vista, mas é equivocada. Acredito fortemente que, neste momento, precisamos de mais profissionais em início de carreira, não menos. Afinal, é impossível construir uma empresa resiliente em segurança cibernética sem contar com os profissionais da próxima geração.
Um pipeline em colapso
Esse é o ponto que raramente entra na discussão. Quando o pipeline de talentos em segurança entra em colapso, ele não se recompõe em um ou dois anos. Em alguns casos, não se recupera nunca.
Já operamos com um déficit global de cerca de 4 milhões de profissionais em cibersegurança. Ao reduzir a contratação de profissionais em início de carreira, as empresas não só deixam de enfrentar esse déficit, como também diminuem a base de talentos necessária para resolvê-lo nos próximos anos.
Cortes de contratação no curto prazo podem parecer eficientes no papel, mas aceleram a fragilidade operacional no longo prazo. Ao eliminar funções júnior, a progressão interna se rompe imediatamente. Não há quem promover, nem quem esteja desenvolvendo repertório, intuição ou experiência, e ninguém preparado para assumir quando os profissionais mais seniores saem. O banco de talentos desaparece e, com ele, o pipeline de liderança para os próximos anos.
Em seguida, ocorre o previsível. As empresas passam a recrutar profissionais umas das outras, em vez de desenvolver talentos internamente. Os salários sobem, as equipes encolhem e as áreas de segurança operam cada vez mais enxutas, justamente quando a complexidade do trabalho aumenta.
A IA amplia as demandas, não as equipes
A IA não elimina o trabalho em segurança, e isso já se reflete nas equipes atuais. Ao mesmo tempo em que acelera tarefas, aumenta o número de atividades que exigem julgamento humano, supervisão e responsabilidade.
Novos modelos de ameaça, demandas de governança, riscos operacionais e padrões de comportamento passam a exigir atenção contínua. O resultado é mais trabalho, não menos. IA e automação ajudam a absorver essa complexidade, mas não diminuem a necessidade de profissionais.
É exatamente por isso que reduzir a entrada de profissionais em início de carreira neste momento é um erro. O trabalho aumenta em volume e complexidade, a superfície de ataque se expande e as investigações e análises forenses estão em constante transformação. E quem tende a se adaptar com mais naturalidade a esse cenário são justamente os profissionais que estão entrando agora no setor.
Os novatos na era da IA
Novas tecnologias sempre redefinem o jogo. Quem cresce com elas desenvolve instintos que o restante de nós precisa construir de forma consciente. Vejo isso na minha própria equipe e nas conversas com outros líderes. Também penso nisso quando olho para meus filhos e imagino como será o mercado de trabalho quando eles iniciarem suas carreiras.
Profissionais em início de carreira trazem curiosidade, energia e abertura para novas formas de trabalhar. Entre a Geração Z, 93% já utilizam duas ou mais ferramentas de IA por semana. Em um ambiente impulsionado por IA, as empresas dependerão cada vez mais dessa abertura para novas ferramentas e do conhecimento sobre o que está disponível.
Por isso, é fundamental oferecer a esses profissionais exposição a atividades relevantes relacionadas à IA. Modelagem de ameaças, revisões de governança em IA, avaliação de fornecedores e exercícios de análise forense são áreas emergentes em que novos talentos já podem contribuir.
Profissionais em início de carreira são nativos digitais e, cada vez mais, também nativos em IA. Tendem a adotar e experimentar novas tecnologias com rapidez, o que acelera a integração dessas ferramentas nas operações de segurança.
Em um ambiente orientado por IA, no qual ameaças mudam, ferramentas evoluem e até a definição de “usuário” se transforma, essa mentalidade faz a diferença.
Então, o que os CISOs podem fazer diante disso? Vejo quatro frentes principais de atuação. Para sustentar a evolução da segurança na era da IA, é essencial tratar a entrada de profissionais em início de carreira como prioridade estratégica, garantindo um fluxo contínuo de talentos ao longo do tempo.
Isso passa por oferecer a esses profissionais envolvimento direto em frentes como modelagem de ameaças, governança de IA, avaliação de fornecedores e análises forenses, acelerando seu desenvolvimento na prática.
Ao mesmo tempo, a IA deve ser usada para potencializar esse aprendizado, não para substituir etapas de formação, já que julgamento, experiência e pensamento crítico continuam sendo construídos com orientação humana. Por fim, é necessário criar um ambiente que incentive novas abordagens com responsabilidade, fortalecendo a colaboração e o desenvolvimento consistente de talentos.
Mantenha as portas abertas
A IA vai transformar a segurança, mas não eliminará a necessidade de profissionais, nem de pessoas que compreendam contexto, risco, sistemas e comportamento, tampouco a necessidade da próxima geração de talentos.
Se reduzirmos a base da organização hoje, adiamos o crescimento futuro e criamos equipes com dificuldade para escalar, se adaptar e proteger o negócio quando a pressão aumentar. A IA pode transformar o trabalho, mas segurança é, e continuará sendo, uma disciplina centrada em pessoas.
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